Apontamento quase diário, quase independente, quase intolerante, quase radical...
sábado, 18 de abril de 2015
A quem me procure e não me encontre.
Na intenção de informar a quem me queira procurar e
não me encontre no lugar onde estive nestes últimos trinta e cinco anos, há que
dizer, como escreveu o cronista da arte de bem comer, do jornal Expresso, José Quitério, por motivos alheios à vontade das outras partes,
devidos tão-somente ao querer do estar e do ser dos meus interesses – note-se
bem, dos meus interesses –, sou
forçado a abandonar a aristocrática Vila Velha de Sintra e trocá-la pelos
aprazíveis e melancólicos ares de Odrinhas. Naturalmente,
que toda e qualquer mudança, quer seja ela definitiva ou temporária, não deverá
ser encarada como um acto de ruptura e afastamento da observação sobre um
"mundo” vivido durante três décadas, pelo que o hipotético descanso de uns
e alivio de outros, de que longe da vista, longe do coração, não fará de mim um
desligado de propósitos ou despreocupado critico. Para mim, a Sintra que vivi
manter-se-á inalterável no que sinto sobre ela e naquilo que julgo que ela deve
ser, conferindo-me este afastamento, isso sim, a frieza e a clarividência tão
necessárias quando se trata de aplicar o ajuizamento de sentimentos. Em decisão assumida, por encontro com o meu chegar
ao tempo do meio caminho e a
aproximação inevitável do fim de um percurso profissional, revejo a experiência
dos últimos trinta anos, como já fazendo parte de uma lembrança de passado
remoto, sentindo-a como saudades de momentos gloriosos, onde foram construídos,
partilhados e fruídos projectos colectivos de geração. Obviamente que, também, não posso esquecer as alterações
feitas, em passados mais recentes, nas oportunidades criadas. Sou obrigado, em
coerência com os princípios de liberdade e democracia que defendo, em aceitar
que se tratou de um direito individual de opção política sob a causa pública,
contudo, em conformidade com o meu direito a ter opinião e a sentir-me
indignado, considero que alguns desses projectos de geração foram, simplesmente,
na desconformidade de poderes pessoais diferentes, abandonados e substituídos
por aportamentos folclóricos, mais orientados
por visões de desencontros de ideias e pensamentos, identificadas no
desconcerto e na vivência da necessidade de palco e protagonismo vulgar, tão
próprio da incompletude frustrante e
da incultura ignorante de quem não consegue acompanhar e, até, de contribuir
para melhorar o que foi criado. Na aprendizagem da recreativa leitura semanal
(obrigado pela lembrança, Pedro Mexia), e na identificação do escrito,
atrevo-me a uma clonagem e inserção de pensamento, e revejo o camoniano momento
de “Esparsa ao Desconcerto do Mundo”:
«Os
bons vi sempre passar
No
mundo graves tormentos;
E
para mais me espantar,
Os
maus vi sempre nadar
Em
mar de contentamentos.
Cuidando
alcançar assim
O
bem tão mal ordenado,
Fui
mau, mas fui castigado:
Assim
que, só para mim
Anda
o mundo concertado.»
O poema serve na facilidade da minha consideração
para reconhecer, também aqui, que fui quebrado pelo desconcerto do desalento,
da incompreensão e do desânimo em que vivo no meu presente mundo, e porque não
quero que ele faça de mim uma má pessoa ou um moldado ou submisso esperançoso
amigo das circunstâncias, prefiro o recolhimento proporcionado pelo
afastamento, mesmo que isso seja visto de forma falível e discutível. Apresentadas as minhas razões e o meu sentir
desencontrado sobre o estado em que o meu mundo se encontra – acrescido, esta
semana, com um novo ministerial anúncio dos propósitos de se manter este estado
de austeridade indigna e miserável por mais quatro anos -, e após satisfação ao
meu pedido, instalei-me com bagagens e esperançadas vontades no Museu
Arqueológico de São Miguel de Odrinhas. E, repetindo, novamente José Quitério,
mas dando um sentido contrário às imposições que determinam o momento, direi
que na imediata improbabilidade de um literal adeus, desejamos que seja,
apenas, um penoso e diminuto até a vista
Obrigado pela atenção dispensada, o meu novo número
de telefone é o 219609520. A quem vos atender, basta pedir para falar comigo.
Nestas últimas semanas tenho
ouvido saberes, lido manifestos e trocado conversas com amigos, colegas e
conhecidos sobre o estado do Património de Sintra e a sua atribuída
universalidade. E em conclusão de resultado, posso afirmar que as opiniões que nos
distanciam são, infinita e proporcionalmente menores ao sentimento que nos une
por este espaço, por estas pedras, por estas gentes, enfim, por estas memórias.
Ora, nesta minha ocupação e trato
do Património Documental Sintrense encontrei um parecer do Arquitecto Raul
Lino, no papel de Superintendente Artístico dos Palácios Nacionais, datado de
16 de Junho de 1953, remetido ao então Presidente da Câmara Municipal de Sintra,
Dr. César Henrique Moreira Baptista, sobre uma projectada intenção de modificação
do sistema de iluminação eléctrica do Largo da Rainha Dona Amélia, junto ao
Palácio Nacional de Sintra.
É, de facto, interessante
verificar que as preocupações de intervenção e enquadramento urbanístico da
Vila Velha, independentemente da especificidade do parecer ser sobre a
iluminação, feitas pelo Arquitecto Raul Lino, possuem uma actualidade
impressionante, apesar de terem sido manifestadas há sessenta e dois anos
atrás, num contexto de reconhecimento turístico-cultural limitado à época e sem
a responsabilidade de estarmos perante um lugar classificado de Património
Mundial.
Também é uma verdade que a Vila
Velha de Raul Lino não era, ainda, o “bazar comercial” que nos é dado a ver,
nos dias de hoje. Havia uma equilibrada convivência entre urbe humanamente
ocupada por uma população residente e vivente do espaço e os turistas
visitantes que vinham à procura do pitoresco e da diferença que a cultura e a
memória sintrense lhes podiam proporcionar.
A intemporalidade do escrito de
Raul Lino, observada logo no primeiro parágrafo do seu texto, leva-nos a tomar
palavra pela exigência de uma urgente atitude de mudança de mentalidade e de
comportamento de quem tem o poder decisório de fazer algo que não se fique por
meras e simpáticas pinturas de esforço de ocultar o defeito, porque, o
resultado final será sempre de pô-lo em
maior evidência.
Regressando à leitura do acontecimento de cinquenta e três, o Projecto
da Câmara Municipal, proposto pelo Vereador Rui Garcia Coelho da Cunha (Acta da Reunião
de Câmara de 28 de Novembro de 1951. Livro nº 50. Fólios 158-158V-159), pretendia, para além da alteração da potência
das lâmpadas, substituir os vidros foscos dos candeeiros colocados na frontaria
do Paço por vidros lisos, colocar um candeeiro-de-pé, com quatro lâmpadas, no
meio da praça e outros dois braços nos cunhais dos prédios de Joaquim António
Vitorino e da família Cosme, em substituição das lâmpadas penduradas que
atravessavam a praça, como ainda, colocar quatro lanternas de estilo “Dom João
V” na muralha fronteira ao Palácio e nove candeeiros, vulgarmente conhecidos “tipo
americano”, nos passeios fronteiros aos prédios de Abílio Alfredo Cardoso,
Hotel Central e Hockey Club de Sintra, até à barbearia “Nelo”.
Esboço
encontrado no Fundo Documental “Consiglieri Martins”
O mesmo vereador, Rui Cunha, voltará com este assunto a reunião de
Câmara, em 16 de Abril de 1953, propondo que o município oficializasse o
Director-Geral da Fazenda Pública, solicitando-lhe resposta aos ofícios
remetidos a requerer parecer sobre a sua deliberação de mexer na iluminação
pública, tanto no Largo da Rainha Dona Amélia como noutros espaços da Vila.
Julgamos, deste modo, que o presente parecer do Arquitecto Raul Lino seja a
resposta ao projecto, subscrito pelo vereador Rui Cunha.
Através da leitura do documento ficamos a saber que o parecer de Raul
Lino provocará um despacho escrito do vereador da Câmara de Sintra, a 26 de
Junho, dirigido para o serviço de obras municipais, afirmando que não existem
dúvidas que o Largo da Vila carece de luz eléctrica, devendo ficar a solução do
problema a cargo dos “técnicos”, pelo que sugere que este estudo seja entregue
nas mãos de um especialista.
Rui Cunha demonstra, deste modo, o seu silencioso desagrado pela interpretação,
feita pelo arquitecto, do projecto apresentado pela Câmara ser de uma
banalidade, aplicando na
resolução dos problemas da Vila de Sintra a mesma solução utilizada nas mais recentes criações urbanísticas da
região, nomeadamente no estilo das últimas espécies que surgiram na linha de
Lisboa a Sintra.
O conceito de leitura de Sintra-Vila, acrescido actualmente, de
Sintra-Serra e consequentes zonas envolventes, teve, tem e terá, sempre, de ser
visto com a sensibilidade e a consciência de que estamos perante uma
criação, sobretudo, artística, não
confundindo este espaço que o homem e a natureza construíram, o primeiro com a
sua arte e o seu engenho e, a segunda, com a sua grandiosidade e exuberância, com
o que possa ocorrer em povoações
anónimas, sem características, sem história, sem feição pitorescas, sem
tradições.
A solução definitiva da
iluminação pública, aplicada no Largo Rainha Dona Amélia, não volta a ser
discutida em reunião de câmara, diluindo-se o “problema” nas razões das
oportunidades financeiras e nas prioridades do município em alterar e melhorar
a rede pública. Os apontamentos do Consiglieri Martins, encontrados nas suas
pastas, dão-nos uma leitura de procura de compromisso estético na aplicação do
tipo de candeeiros, colocados na Vila Velha e as imagens fotográficas de época
descansam-nos sobre as soluções esquecidas.
Sintra
na década de sessenta, do século XX
Apontamentos
de Consiglieri Martins
Candeeiro
na fachada do Palácio Nacional de Sintra
Paralelamente, e sem querer
ajuizar valor estético nem opinar sobre aplicação artística, deixamos em total
interrogação de propósito quatro desenhos de José da Fonseca, datados de 1951,
identificados como «Estudos para o
Candeeiro para o Largo Rainha Dona Amélia, em mármore e ferro forjado»,
encontrados no acervo documental de Consiglieri Martins.
Esboços do
Candeeiro no Largo Rainha Dona Amélia, em mármore e ferro forjado,
de José da
Fonseca (1951)
****
PARECER
DO ARQUITECTO RAUL LINO
«…
MODIFICAÇÃO DO SISTEMA DE ILUMINAÇÃO
ELÉCTRICA DO LARGO DA RAIHA D.AMÉLIA, A PAR DO PALÁCIO NACIONAL DE SINTRA –
PROJECTO
INFORMAÇÃO
A primeira impressão que e Projecto nos dá é a de que teria sido gizado
para qualquer terra, menos para a Vila de Sintra. Verdade seja que a praça
principal desta estância já está de tal maneira descaracterizada, que admitiria
qualquer tratamento sem probabilidade de com isso ficar mais feia do que por
desventura já é. Mas não devemos perder a esperança de um dia melhorar as suas
condições e de tentar restabelecer a feição particular do seu antigo e
desaparecido interesse, que era do género pitoresco, embora nesta condição seinclua a monumentalidade do seuvelho Paço Real.
Certo é que não será a ciência da luminotecnia que
possaresolver o problema da fealdade a que aquela praça chegou; a não
ser que se resolvesse deixar tudo na escuridão e se fizesse apenas incidir um
clarão luarento sobre e venerando Palácio. Mas não trata aqui de cenário de
teatro; importa na realidade iluminar pelo menos de maneira suficiente as
faixas de rodagem de uma vila com certo movimento de veículos. Isto não quer
dizer de modo algum que se deveria inundar de luz o centro da Vila, como se
poderia depreender do projecto que estamos analisando. Quem sofre de qualquer
deficiência na sua indumentária, e que disso tem plena consciência, esforça-se
por qualquer maneira por ocultar o defeito, não procura pô-lo em maior
evidência. O casario da praça – na sua maior parte – está a pedir árvores que o
escondam durante o dia, como que aguardando com impaciência as sombras da noite
em que a sua miséria possa mergulhar, miséria de qualidade artística, e nãopobreza
material que muitas vezes é simpática e pitoresca.
Vai para três
anos,a
pedido do Exmº. Presidente da Câmara de então, pelo amor que temos àquela
terra, tivemos ocasião de elaborar uma nota em que passávamos em revista todas
as casas do Largo da Rainha D. Amélia, preconizando ou receitando para cada uma
o mínimo de obras indispensáveis para a tornar menos agressiva ou mais
aceitável aos olhos do transeunte sensível.Com a nossa experiência
resultante do uso obrigatório da mais apertada economia em trabalhos
profissionais, conseguíamos uma certa depuração por meios relativamente
baratos, e a Vila ficaria com outra fácies, mais amável e menos pelintra.
Isto é apenas
para lembrar quão desejável é o corregimento do que se pode chamar os elementos
essenciais existentes, em face das prováveis reacções da sensibilidade
artística do turista, que é quem devia trazer maior rendimento à terra e quem
se encarrega eventualmente da sua propaganda gratuita, desde que o saibam
cativar.
O que não vejo no presente projecto de iluminação, é este propósito de entrar no corregimento
da banalidade, de que a Vila de Sintra cada vez mais carecida está. Pelo
contrário, parece obedecer à corrente que domina nas mais recentes criações
urbanísticas da região, nomeadamente no estilo das últimas espécies que surgiram
na linha de Lisboa a Sintra.
No plano apresentado
para as multifárias fontes de luz, há um pormenor que deixa ver iniludivelmente
o mal-entendido em que se está laborando – é a indicação de que nos lampiões
existentes no terreiro à frente do Palácio se substituiriam osvidros
“Catedral" por outros vulgares e transparentes. É claro que a Direcção dos
Serviços dos Monumentos Nacionais, quando ali mandou colocar os actuais
lampiões, com seus vidros “Catedral”, soube o que fazia. A ideia não chegou a
ter originalidade; pode ver-se na Capital, aplicada a candeeiros nas arcadas do
Terreiro do Paço, à frente do Teatro D. Maria II, da Igreja de S. Roque, da
Igreja da Madalena, etc. É que os problemas da iluminação não se limitam a
inundar tudo de claridade, evitando penumbras ou projecções de sombra. Junto de
monumentos, em lugares que por qualquer motivo infundam respeito, perante uma
bela paisagem ou no meio de algum aglomerado pitoresco – o problema é de ordem
artística antes de interessar a luminotecnia.
No presente caso, não importa
iluminar por igual todos os decímetros quadrados do pavimento, nem derramar uma
luz brilhante por toda a ambiência. Se nos perguntassem como imaginaríamos uma
iluminação do Largo da Rainha D. Amélia, adaptada às condições deste lugar
público, diríamos: enquanto a maioria do casario que o circunda ostentar a
barbárica fealdade que o caracteriza, seria muito de desejar que houvesse uma
ou mais “esplanadas” na praça (lugares onde se servem bebidas), iluminadas no
género a que internacionalmente se chama à Veneziana, que constituíssem
focos principais de iluminação. Além destes núcleos de claridade e animação,
criar-se-iam as necessárias fontes de luz para uma iluminação modesta e
discreta da via pública, contando não com as correrias de automóveis em
trânsito acelerado, mas apenas com a sua passagem muito pausada, como é próprio
e convém em trajectos através de vias tortuosas em Vilas históricas. Quanto a
focos de luz fixados no Monumento Nacional, não os julgo necessários, e no que
respeita aos lampiões existentes na vedação do terreiro, não se lhes deve bulir
nos vidros, que estão muito bem, mais importando para o efeito turístico que os
alegretes se mantivessem sempre floridos e impecáveis de tratamento, o que
infelizmente até hoje ainda se não conseguiu.
Mais diremos que a multiplicidade de
postes, à parte o seu aspecto banal, nos parece inconveniente, e que julgamos
se poderia iluminar com vantagens os sítios de maior passagem por meio de
lampiões (do tipo dos do terreiro) suspensos de fios transversais, ou
eventualmente de simplíssimas e despretensiosas polés, onde as circunstâncias o
aconselhassem.
O que me parece necessário é encarar o caso como um problema,
sobretudo, artístico; não o confundindo com o que possa ocorrer em povoações
anónimas, sem características, sem história, sem feição pitoresca, sem
tradições. – O mais leve relance da vista por sobre as publicações,
nomeadamente as de propaganda, que – por exemplo – os países como a Itália, a
Inglaterra, a Áustria e a Alemanha – estas não obstante a recente guerra –, nos
continuam a apresentar, bastam estes testemunhos para nos trazer à memória como
o espírito de turismo na velha Europa deve ser compreendido.
Não se julgue que não haja por cá entre nós quem vislumbrasse estes
aspectos. No capítulo de iluminação pública, não nos envergonham certas
realizações experimentadas com êxito em Évora, em Viana do Castelo, em
Guimarães e porventura em outras terras mais.
Lisboa, 16 de Junho de 1953
O Superintendente Artístico dos Palácios Nacionais
Arquitecto
(Raul Lino)
…»
sábado, 25 de janeiro de 2014
O último a
sair que feche a portɄ!
Nos meus encontros e arrumos com a
História Contemporânea de Portugal, deparei-me com um panfleto sindical, datado
de Dezembro de 1973, do Sindicato dos Empregados de Escritório e Caixeiros de
Santarém, a apelar à luta e à reivindicação do pagamento do Subsídio de Natal.
Ora, esta
curiosa e interessante memória documental avivou-me as coincidências do tempo e
dos acontecimentos. De facto, hoje, em vésperas de comemorar 40 anos do 25 de
Abril de 74, sou comparativamente transportado para as amarguras, os
desesperos, as injustiças e os despropósitos de um estado de situação, também
ele comparável, à negra e insensível governança fascizante, de então.
Já pouco me
resta, sobre os argumentos do estar e do ser, para explicar às minhas filhas o
sentir e o significado dessa bela data de Abril, cantada e havida 40 anos
atrás. A mais velha, a meses de concluir um mestrado, prepara-se para emigrar
sem sequer ponderar, em alternativa, poder ficar. A mais nova, nos seus nove
anos de diferença, já lhe pede guarita de cama e apoio, lá nesse lugar para
onde a irmã quer ir viver, porque sente que será, também esse, o seu destino,
como forma de fugir a este presente que, constantemente, se prolonga na palavra
e na acção de homens que, apenas, vendem medos e demónios, enquanto usurpam, em
nome dos seus donos e dos seus colaboracionismos neoliberais, as nossas
esperanças e os nossos sonhos.
De facto, talvez seja verdade que o ‘chaimite’ que,
saído do Largo do Carmo, subiu a Avenida da Liberdade, ia vazio e não levava o
fim daquele outro tempo decrépito. Ele recriou-se na nossa tolerância
democrática e, agora, na oportunidade da liberdade que lhe demos, tomou-nos a
vida e o destino, enquanto, subtilmente, nos rouba o sonho construído e
ilude-nos com a esperança de querer e desejar que se cumpram os desígnios de um
único e possível Abril.
Fotos de Carlos Granja - 25 de Abril de 1974
sábado, 28 de setembro de 2013
APONTAMENTOS DA MEMÓRIA II
ERICEIRA - Em jeito de lembrança de estórias ouvidas e vistas tomadas.
«A Ericeira é uma das mais concorridas praias da Extremadura. Alli costumam veranear muitas familias não só da capital comode muitos outros pontos e o concelho de Torres é... talvez um dos que mais contigente de banhistas dá aquella pittoresca praia. A Ericeira, como todas as povoações da beira-mar possue magnificos ares e dadas as condições de salubridade da terra, pode-se alli viver com a maior comodidade. Tem magnificos passeios e bellezas naturaes, como as Furnas que são dignas de admiração, especialmente nos dias de mar agitado. A Foz, um dos passeios mais predilectos dos banhistas é o ponto de reunião para os pic-nics»
In, Annuario da Folha de Torres Vedras, 1907.
Foto de Artur Pastor, datada entre finais da década de 50 e princípios da década de 60.
APONTAMENTOS DE MEMÓRIA
Sintra e as Estancias de Veraneio e de Turismo
“Grand Hotel Costa”
«Sintra, o delicious Eden, consagrada pelo entusiasmo da lira bironesca, é uma região única no mundo para os prazeres do veraneio e do turismo. A frescura, a amenidade, a brandura do seu clima, o recorte encantador da sua paisagem, a linha airosíssima das suas frondes e dos seus relevos alpestres – tudo lhe dá o valor de um local de atracção e de espairecimento.»
«Ilustração Portugueza». 13 de Agosto de 1921 (II série, nº 808. p.114)
Nas voltas e arrumos que, de vez em quando, dou aos meus papéis e às minhas lembranças, encontrei um escrito de José Régio, de finais da década de quarenta, do século passado, denominado “O Recurso ao Medo”, publicado num opúsculo dos Serviços da Candidatura do General Norton de Matos – artigo esse que tinha sido interdito pela Censura, no jornal República.
A intenção de relembrar estas palavras, sem as descontextualizar, prende-se com o arrepio que a oportunidade e a actualidade do seu conteúdo nos causam. Assustam-me os tempos presentes nos propósitos anunciados e nas intenções escondidas, porque estamos, obviamente, em tempos temerosos e de recurso ao medo.
«Na luta que actualmente se trava em Portugal entre duas formas de pensar e sentir, de governar e de ser — um poderoso elemento há com que jogam os nossos antagonistas: o medo. «O medo é que guarda a vinha», diz-se. Em grande parte, tem sido o medo que tem guardado a actual Situação. Pode, ainda, ser o medo quem melhor a defenda. Não só em Portugal como em quaisquer países onde um regime conquistou o poder pela força, e pela força impera, esse poderoso inimigo da alma se agigantou a ponto de tapar o horizonte.
Inimigo da alma, digo: porque é o medo que tolhe até os impulsos mais generosos, faz desistir até das aspirações mais justas, afoga até o grito mais espontâneo, e, em suma, corrompe e assombra até a mais clara visão da vida. Pelo medo tica a alma pequenina, embaraçada, inerme, torpe. Encolheu-se – dizemos nós de quem teve medo de agir. E não há imagem mais justa. Não admira que cultivem o medo (pois até inconscientemente o cultivariam!) todos os regimes autoritários todos os governos dum partido exclusivo.
Pelo medo das represálias que a imaginação inquieta lhes sugere, se agarram sempre mais todos os governantes tirânicos a um poder que a violência conquistou, e a violência mantém. Assim como pelo medo das sevícias que sobre eles poderão exercer os governantes poderosos, os vão sofrendo e se vão calando os governados infelizes. Quem melhor sustenta a injustiça social – é, muitas vezes, o medo mútuo.
Não quero falar em represálias, não quero falar em sevicias, não quero falar em tiranias, a propósito do regime que há duas boas dezenas de anos se nos impôs. Não quero... porque não quero. Mas há uns bons anos que grande parte do povo português – deste povo que somos nós todos, e não só quem os governantes decretam – vive sob o entorpecedor império do medo. Também aqui pretendo não exagerar, e antes ser comedido. Nada é preciso exagerar, para se provar não poder eternizar-se a estranha situação em que temos vivido. Sim, admito não se tratar entre nos do medo de terríveis torturas, vinganças e repressões. Não é, propriamente, pavor, o medo que nos tem vindo tolhendo. Mas é o medo indeciso, flutuante, hesitante, vago, mole, continuo... O medo supremamente desmoralizador.
Por exemplo um jornalista está escrevendo calorosamente um artigo. Súbito, hesita; detém-se, arrefece: teve medo! Saíram-lhe umas frases sinceras que a Censura vai cortar; todo o seu artigo ficara truncado, em não sendo suprimido, por causa dessas frases sinceras; o director do seu jornal vai ficar aborrecido com ele por tais complicações…
- Tudo isto é o diabo! E o pobre jornalista encolhe-se, desiste da sua sinceridade. Um professor está estudando o programa que lhe deram a cumprir; um artista está compondo uma sua obra; um simples ciclatão está conversando no café com um amigo; um sociólogo ou um filantropo estão encarando certos aspectos da vida social; um trabalhador ou um proprietário rural estão reflectindo (cada um como pode) nos pequenos ou grandes problemas que lhes interessam – e sobre o seu ombro há qualquer mão que mal pesa mas o não larga, mas importuna e repugna, mas desviriliza. É o tal medo mole e continuo. O professor receia nunca poder servir-se da sua experiência para, de qualquer modo, colaborar, desde já ou mais tarde, na organização dos programas que há-de cumprir. Estudar e criticar o programa que lhe deram – pode parecer uma indisciplina perante os seus superiores (Entre parênteses: havia, em Portugal, uma revista de professores do Liceu, que era modesta mas livre, Criou-se, depois, uma revista oficial dos mesmos professores... e acabaram ambas: a primeira porque era livre, a segunda porque o não era. Feche-se o parênteses). Igual receio oprime todos os meus outros tipos de exemplo: O artista receia que a sua obra seja impedida de circular, porque certas suas páginas podem ser tidas por alusivas ou arrojadas. O simples cidadão baixa a voz ao falar com o amigo, porque há na mesa ao lado uma cara desconhecida; e ele receia que seja a dum polícia de informação. O sociólogo, o filantropo, o trabalhador, o proprietário rural, chegaram, talvez, a certas conclusões que gostariam de tornar públicas e ver discutidas. Mas antecipadamente desanimam... e só encoIhem: poderiam ter de ir longe de mais para justificarem as suas conclusões!
Assim por diante. Neste pais cujo «peito forte» Camões cantou, vive-se, há uns bons anos, sob a sombra desmoralizadora do medo. Dir-me-ão que tais receios são infundados? Admitamos que o sejam algumas vezes. Sabe toda a gente que o não são muitas outras! O fenómeno patente é que muita gente, hoje, não rende nada, por medo; obedece, por medo; se filia em certas associações, por medo; vai a missa e faz sinais da cruz, por medo; apoia a actual Situação, por medo. Do ponto de vista do psicólogo e do moralista (pois destes pontos de vista tenho vindo falando), pergunto: Será o medo elemento com que deva jogar uma doutrina que só propôs moralizar a nação, restituí-la à sua unidade espiritual, reconquistá-la para a sua grandeza histórica? A disciplina, a prudência, a ordem, o respeito – que evidentemente são virtudes, e de modo nenhum alheias ao ideal democrático – poderão, realmente, ser fins de que o medo seja um meio? Poderá gerar o medo algo que não seja a hipocrisia, a cobardia, a duplicidade, a manha, o comodismo, o latente espírito de revindicta adiada? Infelizmente, só quem não saiba ou não queira ver – deixará de ver como têm progredido entre nós, em certos sectores, características tão alheias àquele «peito forte» que Camões exaltou…
Ora bem: nesta luta que actualmente se vem travando entre os dois candidatos à Presidência da República, é ainda com o medo que esgrimem (não quero dizer todos, direi muitos) muitos partidários do senhor Marechal Carmona. Aos pobres dos portugueses, já sobejamente atemorizados, que apontam eles para os desviar do candidato proposto pela Oposição? A Iiberdad0 desenfreada, a desordem indomável, a espada suspensa do comunismo, o puro retrocesso a uma época da perturbação, a cega destruição de toda a obra ultimamente realizada.
É espantoso, mas exacto: depois duma guerra em que se lutou (pelo menos assim se proclamou, o que já é honrar o ideal democrático) por um mundo mais feliz e mais livre, os defensores do nosso chamado Estado Novo não podem conceber Democracia senão como sinónimo de real anarquia e licenciosidade. Não podem admitir mentores e dirigentes democratas senão como homens impotentes para criar uma ordem. Não podem ver na liberdade de expressão do pensamento, senão uma porta aberta ao abuso. Não podem supor que se mantenham as lib0rdades essenciais, senão por uma sufocante restrição destas mesmas liberdades. Nem podem sequer, crer na obra positiva do Estado Novo – pois não temos de negar o que de positivo possa ter realizado o Estado Novo — senão como coisa tão frágil, tão destrutível, tão efémera, que imediatamente seria aniquilada pelos raivosos adversários triunfantes.
Ao fim e ao cabo, porém, uma dúvida me fica: serão, na verdade, sinceros estes nossos antagonistas? Nada poderão, na verdade, conceber, admitir, ver, supor, crer, senão aquilo que dizem? Ou antes será que se servem do medo – esse medo que torna a alma pequenina, embaraçada, inerme, encolhida – para continuaram manietando um povo que já ousou dizer não aos seus reis, quando lhe parecia que os seus reis exorbitavam'?»
José Régio
[“O Recurso ao Medo", publicado em Depoimento contra Depoimento, edição dos serviços centrais da candidatura do General Norton de Matos.1949]
«A
actual classe dominante nunca será capaz de resolver a crise, porque ela é a
crise! E não falo apenas da classe política, mas da educacional, da que
controla os média, da financeira, etc… Não vão resolver a crise porque a sua
mentalidade é extremamente limitada e controlada por uma única coisa: os seus
interesses.»
Rob
Riemen
Sou um leigo ou em forma menos simpática, um analfabeto,
quanto ao empirismo teórico da ciência económica e financeira e os seus ditames
funcionais, pelo que o texto que se segue é, acima de tudo, resultado do
conhecimento adquirido na leitura do superficial e da experiência sentida no
quotidiano, e a sua publicação tem mais a ver com uma intenção de partilha de
questões e emoções profundas do que expressar opinião e determinar conceito sobre
o deve e haver cientifico que, em aplicação concreta, resolva o entulhamento
em que estamos todos metidos.
Esta
manifestação escrita, também, pode ser vista como um exorcismo aos demónios que
me atormentam a alma e que querem apoderar-se do meu tempo, retirando-me a
capacidade e a consciência de ser senhor do dia e da hora presente e, no
usufruto dessa condição, poderem transformar incessantemente os meus desejos e
os meus sonhos em realidades perdidas.
Por
estes dias escrevi que me
sentia realizado e, por isso feliz, mas, ao mesmo tempo, dominava-me um
sentimento de preocupação e tristeza. Como explicação desta aparente
incongruência, acrescentava que os dois primeiros sentimentos deviam-se ao
facto da minha filha Maria, aos vinte anos, ter concluído a licenciatura em
Arte e Multimédia-variante fotografia, pela Faculdade de Belas Artes,
salvaguardando com a conveniente e necessária declaração de que a sua graduação
académica tinha sido obtida com frequência completa e dedicada de 3 anos, sem
equivalências nem reconhecimento de créditos curriculares ‘relvalianos’; E, rematava o meu desabafo, dizendo que os dois
estados de espirito subsequentes explicavam-se porque prevejo a incerteza
pessimista do seu futuro, neste promontório agreste que deixou de ser as “madrugadas que se esperavam",
"inteiras e limpas" para em
"Liberdade habitarmos as substâncias
do tempo" e se transformaram numa nova "noite" e num outro "silêncio",
corrompido no sonho e no desejo de não haver, apenas, como alternativa
consequente, uma diáspora forçada para outros lugares.
É
com este estar de dor permanente e crescente angustia que vivo os momentos do
meu tempo, mesmo aqueles que se identificam com as alegrias da vida.
Entre
o muito que aprendi com os meus mestres da Faculdade de Letras, de Lisboa, foi
de que as experiências passadas e os seus consequentes estudos dizem-nos, por
si, muito do que devemos fazer para resolver os dilemas actuais. Ora, a constatação
que faço sobre a nossa realidade de momento é que, infelizmente, pouco ou nada
serve o conhecimento adquirido e o registo da história, porque as gerações que
hoje detêm o poder – umas, reconhecidamente entrelaçadas numa rede promíscua de
famílias político-financeiras de interesses globalizados, outras, educadas e
estruturadas nas máquinas juvenis dos aparelhos das organizações políticas –,
pouco, ou absolutamente nada, estão interessados em afastar a humanidade dos
ditames do caminho imposto, mesmo que isso represente sofrimento, miséria, medo
ou ódio decorrente. Há 70 anos atrás, o mundo de então, abriu a caixa de
pandora soltando a ferocidade das balas e dos ódios ideológicos, em nome do
espaço vital e de mundos ideológicos antagónicos; Hoje, o domínio do tempo e do
espaço de todos nós não anda de suástica na manga da camisa nem faz desfiles
nocturnos iluminados com archotes e fogueiras de livros excomungados; Hoje, nas
chancelarias do poder político e nos escritórios envidraçados das companhias
transnacionais, lá bem nos cocurutos do céu, o bater de tacões e o levantar dos
braços para a frente recto, com a palma da mão para baixo tem outros sinais e
outros comportamentos, mas a linha de pensamento é a mesma; Hoje, as armas
usadas são as sociedades económicas em que vivemos e as suas justificações nas
dependências dos movimentos dos mercados, enquanto que as munições disparadas
são as intencionadas incapacidades de proporcionar a oportunidade, numa
perspectiva arbitrária e desigual de distribuição da segurança, da riqueza e
dos rendimentos, a par da ideia de que é a escassez de trabalho que determina a
necessidade de impor a resignação servil do antes pouco do que nada.
Nesta
linha de pensamento[i],
sobre o actual momento de crise económica e financeira que assiste o mundo
ocidental, em geral, e o nosso país em particular, perspectivamos o problema da
seguinte forma esquemática: Estamos em guerra! Permanente e vertiginosa, extremada
na essência da Luta de Classes.
Somos todos novos ‘servos da gleba’, vivendo em tempos de
realidades cruéis, em que podemos constatar que o apregoado “Estado de Direito”
encontra-se em tal crise de legitimidade e representatividade que nos leva a
construir a ideia de que a democracia, a liberdade, a igualdade, a justiça e os
direitos humanos são, apenas, fracassos da nossa democracia moderna e que,
afinal, se confundem com um estado totalitário, permanentemente, reaccionário.
Academicamente, aceitamos que o fascismo é uma doutrina
totalitária e que em passado recente se manifestou como corrente prática de uma
política de acção que se opunha, violentamente, a qualquer orientação liberal,
socializante ou democrática. O fascismo de hoje, em ascensão na política
internacional, adoptou-se ao sistema e equilibrou as suas manifestações de
poder, enquadrando as suas posturas de arregimentação ideológica com uma nova
severidade económica, social e cultural, encontrada na abstracção das
realidades e na apatia e na indiferença para com todos aqueles que estão fora
da elite social privilegiada. Hoje a xenofobia fascista não é, apenas, para com
os emigrantes ou estrangeiros, para com os comunistas, negros, judeus ou
homossexuais, hoje os próprios cidadãos, indiscriminados e fora de qualquer
rotulagem sociológica, sofrem as represálias deste neofascismo, disfarçado de
híper liberalismo fundamentalista.
Perante
esta análise e a frieza da realidade que vivemos, neste começo da segunda
década do século XXI, atrevo-me, em consonância com a leitura da concepção de Carl Schmitt, de que o “soberano é aquele que decide sobre a excepção”, a afirmar que os
actuais governantes portugueses estão a implantar, sorrateiramente, um Estado
autoritário, de negação e anulação de direitos, dentro da ordem democrática; E,
como todo e qualquer estado de excepção, via de regra, segundo o filósofo
italiano Giorgio Agamben, tem a possibilidade da norma jurídica aplicada
exceder-se a si mesma, Portugal vive, neste preciso momento, sem chamamento às
teorias da conspiração e num limite da lei constitucional, um estado de
excepção, como forma de regra no paradigma político dos estados contemporâneos.
Com a
supressão de direitos e regalias, adquiridos pelo mundo do trabalho ao longo
das últimas quatro décadas, numa temporalidade a perder de vista (por muito que
aparente ser algo de cariz temporário e restrito a situações limites), o actual
governo pretende transformar a excepção da medida, como justificação da
imperiosa necessidade de corrigir uma situação momentânea de deficit e de cumprimento de compromissos
assumidos, numa eterna e permanente normalidade. Ora, o que a História nos tem
demonstrado é que as pretendidas regras de austeridade se transformam em
pobreza, em exclusão social e em violência; E, seguindo as leituras dos
exemplos dos estados de excepção aplicados em prolongamentos de tempo, torna-se
fácil prever que a actuação governamental culminará não no exercício de uma
política com intuito de restabelecer os parâmetros anteriormente existentes,
mas numa combinação de gestão de austeridade com coerção renovada. Ou seja, o objectivo
do governo é recriar uma figura de
cidadão sem qualquer direito, ou seja, o novo servo da gleba e,
consequentemente, propiciando a instalação de um espaço de poder, de mandos e
desmandos de um novo ‘soberano’: o ‘mercado’.
Podemos
consolidar esta nossa observação relembrando a dualidade existente no Estado de Excepção. A primeira, identificada
como principal característica, através dos processos de criação das condições
para que haja vazios legais, permitindo, dessa forma, obter-se o pretexto para
legitimar as suas decisões, num procedimento de constante ignorância grosseira
da constitucionalidade das acções a aplicar e da incompatibilidade criada com as
leis em vigor: E, em segundo lugar, o seu habitual modo de proceder nubloso e
de aproveitamento das zonas cinzentas que medeiam as normas e a sua violação.
Desta
forma, o Estado de Excepção não precisa ser constitucionalmente decretado, há
uma coexistência com o Estado Democrático de Direito, com certo ar de
normalidade jurídica, mas o que se revela é a absoluta falta de códigos, regras
e leis quando o assunto é o estrangulamento violento, por parte do governo
hiperliberal,da população trabalhadora, em absoluta violação
da vida humana. As precárias condições que a maioria da população portuguesa já
enfrenta (e perspectiva-se que venha a continuar a enfrentar), estão muito
aquém de qualquer direito humano e civilizacional vivido nos países europeus
ricos e germanistas dominantes. A nossa vida está, neste momento, muito mais
próxima da miséria do terceiro-mundismo do que da riqueza ocidental; Este
governo está, de todo, mais interessado em nos transformar em servos da gleba,
construindo um novo modelo de produção ‘neofeudal’, em que no topo da pirâmide
estarão os senhores detentores do poder económico, independentemente de serem
portugueses, alemães, americanos, sauditas ou chineses, no meio, eles próprios,
como bons colaboracionistas, capatazes ou testas-de-ferro, em lugares ministeriais
ou de conselhos de administração e, na base, numa total e completa
subjuntividade, a maioria da população.
Num paralelismo de pensamento com o filósofo italiano Giorgio
Agamben, podemos, também, desmontar o conceito de Estado de Excepção para
definir o regime político português contemporâneo, envolvendo a actual vida
política lusa numa situação de enfeudamento ao neoliberalismo europeu, de
influência germanófila, quanto aos valores e métodos de aplicação dos modelos
económico-financeiros, estabelecendo que a
coexistência entre o Estado democrático de direito e o Estado do direito produz
um espaço político paradoxal de indeterminação, onde funciona a violência e a
arrogância das decisões em detrimento dos direitos e interesses dos comuns cidadãos.
Um
estadista português, desaparecido em Dezembro de 1980, em entrevista ao Jornal
«A Capital», publicada em 21 de
Janeiro de 1975, terá reconhecido que «Quem
tenha o mínimo de conhecimento da história da humanidade ou esteja atento ao
panorama social em que vive, não pode evidentemente ignorar a luta de classes.
É inegável que a divergência de interesses entre os vários grupos sociais tem
conduzido uns à conquista do poder em detrimento de outros, tem conduzido à
existência de exploradores e explorados e à contradição ainda hoje dominante na
nossa sociedade: enquanto alguns portugueses detêm os meios de produção, a
esmagadora maioria não tem, para sobreviver, senão a força do seu trabalho».
No século passado, António Sérgio interrogou-se, sobre as elites
literárias portuguesas, porque é que havia tanta vilania entre os «"intelectuais" desta terra, e
tanto escarninho odiador de toda reverberação do espírito». Fê-lo, apenas,
sobre este mundo intelectual porque não chegou a conhecer o Portugal do século
XXI. Porque se assim fosse, decerto, que me autorizaria citá-lo, abrindo o seu
dizer, a todos os interlocutores da contemporaneidade política nacional,
questionando-os porque é que o seu povo sofre o desprezo e o abandono, enquanto
a‘sarça da retórica’, o faz perder, definhar ou morrer no que ele
tinha de bom, de probo, de saudável, de inteligente e de nobre.
Independentemente do tempo e do propósito, contínua pertinente,
legítima e actual a interrogação sergiana,
porque as fatalidades e as
apatias, as angústias e as dúvidas encontradas no presente são as mesmas que os
nossos pais e os nossos avós conheceram no passado salazarento. Hoje,
perseguem-nos no tempo, as gladiaturas das incertezas do futuro, manifestadas
em modelos cegos e totalitários que, na substituição de princípios e de noções de
equidade social e de respeito pela vida e pela civilidade, impõem medidas de
querer.
Enfim! As realidades do
nosso “fado” em nada mudaram, apenas as formas de se manifestarem e os seus intervenientes,
porque, de facto, continuam a ser tempos de dança política sem rosto ou,
simplesmente, das ditaduras subtis pela existência da falta de alternativas.
Continuamos a viver no descrédito total do papel da função e do desempenhar
político, sustentado pelos continuados desgovernos e corrupções dos aparelhos
governativos e pelas viciadas e vendidas promessas sobre a “terra prometida”,
gritadas tantas vezes nas bancadas da Assembleia da República, agora, decretada
vazia do seu conteúdo republicano, enquanto esquecida na comemoração do seu dia
e invertidamente hasteada na oficialidade dos mastros públicos.
Portugal,
vive há quarenta anos num incumprimento de alteração das suas profundas
desigualdades. Os projectos de transformação da Sociedade, defendidos pelas
vozes dos políticos e partidarizadas nos programas eleitorais, assentam,
sucessivamente, na necessidade em reformas e nos seus propósitos de alterar
profunda e irreversivelmente as estruturas políticas, económicas, sociais e
culturais do País. Todos estes intervenientes ajeitam a sua sapiência partindo
da análise da realidade portuguesa e dos paralelismos internacionais,
enaltecendo as grandiosidades estrangeiras mas registando a pretensão de não
copiar modelos. Todos estes intervenientes têm como meta a conquista da
igualdade e a eliminação progressiva das contradições e desigualdades
económicas, sociais e culturais. Todos eles pugnam pela liberdade e reconhecem
as incongruências responsáveis pela luta de classes.
Mas,
todos eles, continuam a contribuir com os seus desmandos para que haja cortes de
estradas e capas de jornais. Resumidamente, como escrevi há dez anos atrás, «São os desencantos pelo reconhecimento de
que o único desenvolvimento declarado é o do obscurantismo, da ignorância e da
ausência de soluções que, apenas, alteram os dados de podermos ser mais que os
outros, porque se de seis estádios apenas se precisava, fizemos dez no culto do
princípio da vaidade e da fachada. Em suma, são os tempos em que também se vive
na renúncia, com a indiferença, o cansaço e o pessimismo demolidor de quem sabe
que para haver a diferença desejada, vamos ter de entrar numa outra lista de
espera até “sentirmos o desejo de ser civilizados e, não apenas,
contentarmo-nos só em parecê-lo”.
***
A propósito, esqueci-me de observar que o estadista português
desaparecido em Dezembro de 1980, mais precisamente no dia 4, se chama Sá
Carneiro. Estou, hoje, com a sensação que, lá para os lados da rua São Caetano,
à Lapa, a fotografia deste político deve estar arraiada da parede, porque o seu
pensamento, de certeza absoluta, já não faz parte daqueles que se intitulam
seus herdeiros.
[1]Aliás, é nesta linha de pensamento que o
economista norte-americano Paul Robin Krugman, prémio Nobel da
Economia em 2008 e actual professor na Universidade de Princeton, nos apresenta
a sua tese sobre o actual momento de crise económica e financeira que assiste o
mundo ocidental (“Acabem com esta crise.
Já!”, Lisboa, Presença, 2012). Paul
Krugman é um crítico dos movimentos teóricos da “Nova Economia”, resultantes do
progresso tecnológico e da globalização económica, do final da década de 1990. Krugman é, habitualmente,
considerado um seguidor da escola keynesiana, foi um acérrimo crítico da administração Bush e da sua
política interna e externa - críticas apresentadas na sua coluna do The New
York Times –, tendo escrito mais de duas centenas de artigos e vinte livros
sobre economia e finanças. A 27 de Fevereiro de 2012 recebeu o grau de Doutor Honoris
Causa da Universidade de
Lisboa, Universidade
Técnica de Lisboa e da Universidade Nova
de Lisboa.
Mais de 50 anos, pessimista e descrente; Irascível com a estupidez humana; Heterossexual assumido e praticante; Pinga-amor inofensivo (próprio da idade), que adora apreciar a inteligência, a beleza, a sensualidade e a sensibilidade.