sábado, 21 de maio de 2011

quinta-feira, 24 de março de 2011

Escrever

Reencontro com momentos de desabafos solitários, escondidos na gaveta da memória.
Escritos num outro tempo, sem qualquer intenção de serem um começo, um meio ou um fim de qualquer coisa e tendo, apenas, como elemento comum a representação dos tumultos e conflitos íntimos de um homem que, apesar de se sentir bem consigo mesmo, estava contraditoriamente sem saber se gostaria ou não de ter sido outro homem.

Escrever.

Escrever e continuar a escrever. Sempre o que sentes.
Escrever é procura constante.
Escrever é ideia perdida que não se consegue esquecer.
Escrever é algo para sentir, sem ter necessariamente sentido.
Escrever é lágrima e sorriso por sensação.
Escrever é quando um viver depende de um querer.
Escrever é ser solitário por entre a multidão.
Escrever é estar triste ou contente.
Escrever é dominar tormenta.
Escrever é não ser vencido mas vencedor.
Escrever é conquistar por dor.
Escrever é gritar o que se sente.
Escrever é ignorar vergonha de ter ou ser.
Escrever é castelo que tenta.
Escrever é imagem que se percorre.
Escrever é flor que se deseja.
Escrever é corpo que treme.
Escrever é tristeza que fica.
Escrever é recordação que não morre.
Escrever é companhia divina.
Escrever é sentimento de contentamento.
Escrever é ciúme de troca.
Escrever é saudade que lembra.
Escrever é temor de doente.
Escrever é quando se compreende.
Escrever é a fuga escondida que toca.
Escrever é pequena palavra de crente.
Escrever é tudo e apenas amor.

E, tudo ainda, no escrever... o que se sente.


......


Insisto

Quero a noite !
Quero a infinita luz que ela tem,
porque, enquanto me percorro,
caminho ouvindo os meus passos
e livre me sinto para pensar ilusão.

Quero a noite,
para me dissolver em volúpia,
mutação de corpo em alma,
fim de fronte1ra desta vida,
em desejo que domina a dor por gemido.

Quero a noite,
porque não existe ruído
e sim, sensação, choro e grito.

......


Quando salto aquele muro

Escuto a música enquanto as vozes se confundem
em misteriosos desígnios.
Ouço falas, ouço risos,
como cantares que saltam com palavras que deslumbram.

Espero,
até que surge,
por entre nuvens de alegria e pensamento,
aquilo que é o meu vinho:
o sonho que sinto.

É melodia que avança,
como névoa que se interioriza no meu ser,
quando suavemente percorre todo o meu corpo.
É voz que me diz ser outro,
em oferta que me preenche,
por riso e companhia;
E que, por vezes, me faz ser diferente
quando me ensina aquilo que verdadeiramente sinto.

É caminho através de outros céus.
São estrelas quentes que derretem outros ventos,
que afastam antigas recordaç3es.
É sentimento a que ergo a minha ternura,
com brilho de olhos a lutar por procura,
em fim de estrada de solidões.
É amor, desejo, rumo eterno
que nega a chegada de qualquer outro momento.
É querer viver paixão,
em amar sem conseguir descrever o tempo,
noutra cousa, que não seja aquilo que sinto,
quando sempre salto aquele muro,
como se tratasse de outro sentimento.
Solidificadas as ideias...

Houve tempos que percorri passos de grande mundo.
Pensei ser muito, quis ser outro.
E, por mim, vi que para construir tudo, só lutando pela morte de monstro, que com correntes toma o pensamento,
transformando homem livre em ser preso, obrigando-o a combater por ser outro.

Sonhando. Em guerreiro de filosofias conquistei.
por minhas vidas em luta combati,
à procura de pão, paz e utopias.

Agora, por muito diferente que eu seja,
além deste momento, ficará por sentido desejo,
a ideia que resta de ser igual a quem esteja
em sol e sofrimento, mas sempre livre neste ensejo.

E, por muito que digam, entre boca e dentes,
que papoilas em campo são todas diferentes.
Eu respondo:
Foi em terra de saber que semeei, foi em trabalho que vivi.
Eram frutos, eram desejos, transformados em tijolos de sentimentos.
E, entre todos eles, eu sempre senti,
que por muito distintos que sejam, por todos eles
até qualquer Deus disse sim.

Agora que sinto que estou perto do fim,
grito por aquele contributo,
– onde justiça serve para ser paz –,
porque de ideal tomado pode a voz haver muito,
enquanto a palavra será tudo, quando igual for
todo o ser dono deste mundo.

E, mesmo com a certeza que tenho de em pó me transformar,
pelos tempos, a vida neste mundo,
posso pensar em querer que transformadas as ideias,
– quer sejam por momentos ou inteiras folhas –,
desde que em todos estejam criadas, bastará o pensamento falar
para que fiquem como casas, com paredes e telhas,
porque ventos, não vão os homens conseguir mudar.


......

Gira Espingarda de Menino

Num Diário de Notícias, lido de uma forma exaustiva, própria de disponibilidade de fim-de-semana, tomei conhecimento de uma exposição de fotografia, da fotógrafa americana Nina Berman, na Jen Bekman Gallery, de Nova Iorque, denominada Purple Hearts e que retrata pessoas reais que participaram na guerra do Iraque e que regressaram com as marcas dessa cruel, desnecessária e inconsequente guerra. Entretanto, viajando na internet, vi algumas fotos desse «manifesto antiguerra» de Nina Berman Photography.
Essas imagens trouxeram-me à memória outras guerras e outros tempos.

Tive a sorte de ter sido poupado à demanda da ida para África, em força, pelo que não senti as balas e os medos, nem vivi as incertezas do regresso. No entanto, foi-me dado a ver os horrores dos sobreviventes desfeitos e solitários. A senhora minha mãe, numa profilaxia de saber de mulher deu-me a consciência política, da mesma forma que me tinha dado a vida, e mostrou-me o sentido da solidariedade, levando-me ao Hospital Militar de Lisboa, a visitar restos de soldados, e no meio do desespero daquelas lágrimas e dos gemidos doridos, deixámos laranjas, cigarros e o conforto do silêncio.
Anos mais tarde, bebendo o Pessoano Menino de Sua Mãe, escrevi, «Gira Espingarda de Menino».

Da guerra, três meses tinham passado.
Desmobilizado ficou, como também quase inteiro, o corpo chegado.
Parabéns recebeu na vila, em festa acolhido.
Foram foguetes, beijos, febras, sorrisos e vinho,
dançados com música de disco gravado.

Mas ninguém sabia...
Nem noiva, de espera incerta.
Nem mãe, de angústia desperta.
Nem pai, de choro escondido.
Que, de homem inteiro ele já estava perdido.

Nem mesmo o Pedrito,
neto da velha criada,
que em brincadeiras perseguia - de punho com gira espingarda -,
e imaginários inimigos matava
com o Tac, Tac, Tac, que fazia.

Ninguém viu...
Que o regressado querido,
o mesmo não estava,
como em passado havia seguido.
Antes:
com cruz ao peito de fala de salvação e, em mão levando,
espingarda de feito por troca de criação.
Agora:
de corpo desfeito,
em combate e destruição,
lembra-se entre choro gritante,
por criança ou ser,
que de diferente apenas tinha
- em declaração de homem crente -
branca é que não !
e que preta por ser,
a morte merecia, quando estendia a mão por pão.
Mas quando
(sem marcas deixar)
mostrou que restando, do soldado querido,
estar por terra deitado
encolhendo-se de medo tremido
- porque lembrança de outro tempo não descansa -,
ao recordar o som da morte por ele sentido.

Causou o silêncio entre a festança e a dança.
Só porque ninguém sabia...
Mas apenas tinha sido, sonhar de guerra em tempo perdido,
que em cruz de engano a Deus tinham traído,
por divino dever,
com o Tac, Tac, Tac que desfazia inimigo desconhecido,
em brincadeiras que fazia gira espingarda de menino,
em todo o seu ser de soldado há muito deixado de ser querido.



......

«África»

Oh África, no que te transformaram.
Eras terra felina, conto de mistério,
só que ficaste odiosa morada,
passada consequente, em morte e bala tratada.
De um lado, por perto: guerra,
de outro, por longe: apenas uma carta,
no meio: outra terra, outra gente.
Foste pesadelo infindável,
quer fosse noite, quer fosse dia;
em que vida,
resume-se a pensamento que não esquece,
que não é aquele, mas um outro.
o plaino adormecido,
tantas vezes sonhado.

Oh África, se tu adivinhasses
quantas vezes foram ditas,
em sonos fugidos: - Adeus terras secas !
Reconhecias, que por entre lágrimas e sangues,
há sinal que não desaparece:
É recordação no regresso,
é caminho certo no querer voltar.
E, por muito pequena que seja a esperança
- enquanto vivo –
é palavra que não perde,
é qualquer coisa que resta;
por muito grande que seja o desvio,
por muito prolongado o caminho.

Oh África, se tu adivinhasses,
o que representas para teus filhos,
decerto querias ser tudo,
menos terra, menos solidão.
Querias ser Deus, querias ser fogo,
apenas recordação de vida
é que não

terça-feira, 8 de março de 2011

PORTUGAL NO SEU MELHOR !

Recebi no meu Email uma mensagem digna deste PORTUGAL profundamente triste:

"Este anúncio foi publicado num famoso site de procura e oferta de
trabalho nacional. Um jovem recém-licenciado na área leu-o e achou que
devia responder à letra!

(A Revista Visão de 16 de Julho publica um artigo sobre o jovem que
deu esta resposta!)

ANUNCIO:
A (...não me indentificaram o nome da empresa...)está a aceitar candidaturas para estágio na área de Design
Requisitos Académicos: Finalista ou recém-licenciada(o) em Design
Competências pessoais:
* Poder de comunicação;
* Iniciativa;
* Auto-motivação;
* Orientação para resultados;
* Capacidade de planeamento e organização;
* Criatividade
Competências técnicas:
Conhecimentos nos seguintes programas/linguagens
- Adobe Photoshop,
- InDesign,
- Illustrator (FreeHand e Corel Draw) Flash,
- Dreamweaver,
- Premiere,
- AfterEffects,
- SoundBooth,
- SoundForge,
- AutoCad,
- 3D StudioMax
- HTML (basic),
- ActionScript 2.0 (basic),
- CSS,
- XML.
Remuneração: Estágio Remunerado
Duração: 6 meses, com possibilidade de integração na equipa

Portanto, e resumindo, esta empresa quer um recém-licenciado que saiba
de origem 13 softwares e 4 linguagens de programação. Isto é o país em
que vivemos.
Não me ficando atrás perante esta pérola, decidi responder no mesmo
estilo. Eis o que lhes respondi:

Boa noite,
Estou a entrar em contacto para responder ao anúncio colocado no site
Carga de Trabalhos para a posição de estagiário em Design.
Chamo-me André Sousa, tenho 25 anos e sou um recém-licenciado em
Design de Equipamento (Fac. Belas Artes de Lisboa).
Sou extremamente comunicativo, transbordo iniciativa e auto-motivação,
estou constantemente orientado para os objectivos como uma bússola
para o Norte (magnético), sou mais planeado e organizado que o
Secretário de Estado de Planeamento e Organização e sou um diamante da
criatividade como já devem ter percebido e como vão poder comprovar
nas próximas linhas.
Quanto aos conhecimentos técnicos:
Sou um mestre em Adobe Photoshop.
Conheço o InDesign por dentro e por fora.
O Illustrator, Freehand, Corel e o Flash são os meus brinquedos do dia
a dia, faço o que quiser com eles.
Nem me ponham a falar do Dreamweaver, até de olhos fechados...
Premiere... Até sonho com ele!
AfterEffects tem um lugar especial no meu coração.
Faço umas coisas bem maradas com o SoundBooth e o SoundForge.
Com o Autocad e o 3d Studio Max até vos faço duvidar dos vossos próprios
olhos.
Html, Action Script 2.0, CSS e XML são as linguagens do meu mundo.
Mas sejamos francos, qualquer estudante de 1º ano sabe de cor e
salteado qualquer um destes 13 softwares e 4 linguagens de
programação...
Eu sou um recém finalista. E como tal tenho muito mais para oferecer:
Tenho conhecimentos de Cinema 4D, Maya, Blender, Sketch Up e Paint ao
nível de guru.
Tenho conhecimentos mega-avançados de C+, C, C++, C+ ou -, Java,
JavaScript, Ruby on Rails, Ruby on Skates, MySQL, YourSQL,
Everyone'sSQL, Action Script 3.0, Drama Script 3.0, Comedy Strip 3.0 e
Strip Tease 2.5, Ajax, Vanish Oxi Action, Oracle, Sonasol, XHTML,
Batman e VisualBasic.
Conheço o Office todo de trás pra frente assim como o Microsoft WC.
Domino o Flex ao nível do Bill Gates e mexo no Final Cut Pro melhor
que o Steven Spielberg.
Tenho ainda conhecimentos de grande amplitude em 4 softwares que estão
a ser desenvolvidos por grandes marcas e também de 3 outros softwares
que ainda não foram inventados.
Falo 17 línguas, 5 das quais já estão mortas e 6 dialectos de povos
indígenas por descobrir.
Com estes conhecimentos todos estou super interessado num estágio
porque acho que ainda tenho muito para aprender e experiência para
ganhar. Espero que ao fim de 6 meses tenha estofo suficiente para
poder fazer parte da vossa equipa e quem sabe liderá-la.
Fico ansiosamente à espera de uma resposta vossa.
Embora tenha uma oportunidade de emprego na NASA e outra no CERN
espero mesmo poder fazer parte da vossa equipa.

Cumprimentos,
A. S.

PS: Com um anúncio desses, a pedir o que pedem a um recém-licenciado,
é uma resposta destas que merecem. Peço desculpa se feri
susceptibilidades mas não me consegui conter.»

domingo, 2 de janeiro de 2011

Hoje andei a recuperar textos que escrevi, uns num ontem mais longínquo, outros num ontem mais recente. Três escritos poéticos, sem preocupações de estilo ou regra, apenas revisitações de sentimentos e de palavras:

Quem sou ?

Como se pode descobrir sem se conhecer,
quanta diferença pode ter
o significado de vir correndo pelo tempo,
esperando passivo a revolta de não conseguir
ser diferente ao pretendido por ser.

Como posso descobrir o que de mim há-de vir,
se só consigo escrever quando em fuga me meto,
por caminhos de fumo ou de vinho bebido.
Não será aquilo que escrevo outra cousa que não sinto,
outra estrada de tempo ?
Porque, enquanto me oiço,
falando em silêncio,
a mim próprio mostro aquilo que gostava de sentir,
como sendo outro,
em vez do que pareço.

Mas…
se não sou eu, se sou outro,
como posso saber qual dos dois em verdade me sinto ?

*****

Quando descobri Pessoa,

Quando descobri Pessoa,
pegava num livro ao acaso.
Passava pelo tempo, folheando páginas sem ler,
descobria palavras que não sentia,
vivia desconhecendo que sabia sem saber,
que todo o sentimento pode ser,
apenas, vida.

Quando descobri Pessoa,
- Um dia... –
percebi que podia ver,
quanto uma criança pode ser poesia
ou um sentimento ser sentido.

Quando descobri Pessoa,
encontrei razão ao meu medo.
Ignorei-lhe a rima, e à pontuação não lhe liguei,
porque não era isso que me fazia saber
quanto eu sofria, quanto de cego estava perdendo.

Por isso.
- Obrigado Pessoa ! -.
Porque se a terra nos separa,
sentir nos une.

E, apenas, lamento,
a pena que eu tenho de não te conhecer em vida, d
e não te saber em jeito.
Porque, decerto, contigo abraçaria as palavras corridas,
de tudo o que se sente pela vida,
para que se grite de alma sentida no tempo.

Por isso.
Escrevi-te no meu diário,
copiei-te no meu quotidiano.
- Que importa que digam –
Usei-te, escrevendo palavras ditas em textos meus.
Porque, decerto que acreditarias
quanto de ti, poeta incompreendido,
em mim me vejo escrito.

Adorei conhecer,
que tu, Poeta,
em vida eras um ser
em escrita mais que um mundo,
mas sempre Fernando Pessoa.
Um homem com saber,
em que "crer é morrer",
mas amar é ter sentido.
E, por muita ilusão que pareça,
ensinaste-me: que é pensamento que se deseja.

Portanto,
não me digam, que em ti
- Fernando -
somente soa solidão e amargura escrita,
porque senão, pergunto:
desde quando, querer
“… considerar-me e ver aquilo que sou... “
não é poesia de humana pessoa ?

*****

[Justificações que a Razão desconhece]

Tudo é diferente quando me procuro,
por palavras que escrevo
em papel liso com tinta corrente.
Tudo é diferente quando por mim penso,
quando por mim sinto.
Tudo é diferente quando por minha mão,
posso dizer tudo, posso dar grito.

E se por entre momento,
em estradas distintas caminhando,
hajam pensamentos corridos,
– apenas porque quero ser diferente –,
antes andar fugido,
por entre mágoas e sentimentos
do que esconder o que penso, não escrevendo o que sinto.

Que vergonha pode haver
no chorar as palavras que oiço, se são verdade em desejo ?

Porque me obrigo a continuar naquilo que não quero ser ?
Porque continuo a não acreditar naquilo que sinto ?
Porque não me hei-de compreender no que sou ?
Se são imagens que persigo,
se são vozes que reconheço
em razões que rimam nos passos que dou,
com os sentimentos que comigo habitam.

Porque não hei-de ver
que o gosto de estar nesta forma distante,
é sentir que não se compreende,
é alma fria iludida;
é tudo interrogação diferente.

Um Natural Engano

Folheando o caderno onde guardo os textos que escrevi, encontrei o artigo que publiquei no «Jornal de Sintra», Escuta, Zé Ninguém !, e relembrei as leituras que fiz desse perturbador livro de Wilhelm Reich e da sua amargurante e pessimista actualidade. As palavras de então, encaixam sem uma folga nos momentos de agora, pelo que volto a citar, como se de exorcismo se tratasse, “o grande homem é, pois, aquele que reconhece quando e em que é pequeno. O homem pequeno é aquele que não reconhece a sua pequenez e teme reconhecê-la; que procura mascarar a sua tacanhez e estreiteza de vistas com ilusões de força e grandeza alheias.”
O Dejá vu da situação fez-me recordar os primeiros quatro anos da década de noventa e o que, então, escrevi:

Um Natural Engano

Em toda a natureza,
como sinal de vidas,
por entre céus, mares e terras luminosas,
de tonalidades e expressões devidas,
através de efeitos onomatopaicos de linguagens misteriosas,
com o seu quê de interpretação desconhecida,
encontramos no dia a dia
uma fala que nos é dirigida:
- a abelha que zumbe,
- o bode que bodeja,
- o boi que arrua,
- o burro que orneja,
- o camelo que blatera,
- a cobra que sibila,
- o corvo que crocita,
- o crocodilo que chora,
- a doninha que chia,
- o elefante que brame,
- o ganso que grita,
- a gralha que grasna,
- a hiena que uiva,
- o leitão que cuincha,
- o macaco que guincha,
- a mosca que zoa,
- o papagaio que palra,
- a pega que tagarela,
- o porco que grunhe,
- a rã que coaxa,
- a serpente que assobia,
- o urso que ronca,
- a vaca que muge.

....

Mas... oh, deuses !!
por natural engano
encontrámos, depois disto tudo,
em vulgares discursos diurnos,
um incómodo elemento
por entre toda esta vastíssima gama cantante
- nomeada em tal pandorga -
emergindo, qual surdo-falante,
simplesmente... um erro !
Era animal diferente,
que cismou ter o poder
de dominar o silêncio inteligente
através de ignorâncias sonoras,
no ser senhor com cognome de voz urrante,
tendo-se como Rei da Selva
de arrogâncias sentidas e perfiladas
e fomes endinheiradas e desmedidas.

Só que também... por natural sentença divina,
traia-se tal semelhante intenção de rugido,
do suposto Rei da Selva.
Pelo que de desconhecido se conhecia,
quando no sussurro de constante deletrear troca,
por vómito incompreensível de tamanha voz dissonante,
se escrevia após o "R"
o acrescento "ui" ditongolante,
e se repetia, agora de forma mais despreocupante,
que o antigo fonema "e" conhecido
se tinha transformado em vogal "i" dominante
sempre que bocal som se ouvia.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

«No estado em que se encontra o país, os homens inteligentes que têm em si a consciência da revolução – não devem instruí-lo, nem doutriná-lo, nem discutir com ele – devem farpeá-lo. As Farpas são pois o trait, a pilhéria, a ironia, o epigrama, o ferro em brasa, o chicote – postos ao serviço da revolução.»

Eça de Queirós




ONTEM

Este país está «floribelado».
Reconheço que sou um insatisfeito com a vida, e não me estou a referir às situações em que ela me tem sido madrasta. No entanto, mesmo possuindo um sentir pessimista, considero que não sou um integralista descrente, vivendo em completa bruma tediosa. Por vezes não consigo acompanhar o actual ritmo da vida, mas isso não significa que esteja preso às ideias do meu passado, recorrendo à máxima de que no meu tempo é que era bom, contudo, sou obrigado a reconhecer que dou comigo, frequentemente, a sentir que não me enquadro com a «nova» mentalidade quotidiana, ora de braço e mão esticados, ora de «mãozinha» revirada para cima em gemidos desfalecidos, retorquindo asperamente o desabafo do Júlio Dantas, “isto é só para safados!” e “safadinhos”.
Abordaram-me – simpaticamente diga-se de passagem, apesar do formalismo do agendamento do «encontro» profissional –, para me tirarem algo do meu saber e contando que, em prol de não sei o quê, colaboraria com algo que não concordo. Estão, nestes últimos anos a matar um projecto de trabalho, construído e assente, não na vontade individual, mas sim numa ideia estudada, defendida e aplicada por gerações de profissionais das ciências documentais, há mais de três décadas.
Estas novas gerações de dirigentes, nados e criados nos grupos juvenis dos partidos políticos, que chegaram por estes últimos anos ao poder são, de facto, um produto das circunstâncias. Não possuem cultura geral nem cívica. Julgam que vestir um fato preto com uma gravata cinzenta, do Hugo Boss, ou conduzir um Audi, em segunda mão, lhes dá o estatuto e a experiência.
Muito recentemente um homem – que obviamente não posso identificar –, que apesar de estar na política por ambição pessoal, não esqueceu a educação e os princípios de convivência recebidos dos senhores seus pais, disse-me que havia muita falta de reflexão sobre os comportamentos, que alguns dirigentes se esqueciam da diferença entre o estar e o ser, porque, simplesmente, eram produtos da falta de cultura existente neste pequeno Portugal. E isso acontecia, porque não tinham, ainda, o tempo necessário para obter a sabedoria de vida, ou porque viviam, exclusivamente, do imediatismo encontrado no poder de ser.
A conquista do poder, por parte destas gerações, cultural e humanistamente, híbridas é feita numa base de astúcia e em abandono de qualquer seriedade. Para eles não é preciso ter ideias provenientes do estudo, da análise e da discussão, não sentem, até, a necessidade de conhecer o espaço e o homem que os rodeiam, porque o único objectivo que norteia a sua vida é manter o poder conquistado, seja pela bajulação a quem está acima seja pelo caciquismo opressivo sobre quem está por baixo.
Esta aplicação do medo e da insegurança como método de gestão, embrulhado em traiçoeiros beijos e de falsos cumprimentos, leva-nos a pensar que o mérito de subir mais alto e que a vontade de dar o nosso melhor só conduz ao sermos mais detestados e mais insultados. De um momento para o outro, através de vozes e engraxamentos subservientes, somos passados a bodes expiatórios de mesquinhas ambições e de sobrevivências realizadas a todo o preço, impondo-se o nosso afastamento, não só como potenciais inimigos concorrentes, visto sermos declarados conhecedores das fraquezas, das incongruências e das apropriadas mudanças dos tempos e das vontades.
Segundo o historiador Fernando Rosas, este nosso Portugal dos pequeninos tem uma administração e uma sociedade com uma longuíssima história de delação, correspondendo a um figurino sociopolítico das sociedades subdesenvolvidas, em que a delação é um subproduto da miséria, do atraso e da falta de atitude cívica e solidária. De facto, posso confirmar esta premissa, porque durante os meus recentes estudos, deparei-me com centenas de manuscritos, anonimamente codificados, relatando situações, propósitos, opiniões e acontecimentos, em denúncias nominais, começando, praticamente, todos eles, pela frase «consta que». Há data a que o meu estudo se reporta, estes nomes denunciados – que nada têm de anónimos –, sofreram com a humilhação da prisão, a dor física da tortura, o ostracismo do medo. Hoje, adormecidos pelo sol da democracia, acabamos por nos prendermos na dignidade do silêncio, na procura de vencer na serenidade do estar e na generosidade do esquecimento, para ultrapassar os momentos e as indignações a que somos sujeitos.


HOJE

Dia normal, sem traumas nem tramas.
Continuo magoado e desiludido com o Portugal dos pequeninos. Mais uma vez vieram ter comigo com explicações esfarrapadas e lágrimas de crocodilo. Compreende-se, não vá o diabo tecê-las…
Tenho que procurar não falar demasiado, não porque tenha receio de represálias, mas porque me dói. Sempre disse o que pensava e espero poder continuar a fazer o mesmo.
Aliás, cada vez gosto mais dos meus cães e da sua sinceridade de olhar.