terça-feira, 8 de março de 2011

PORTUGAL NO SEU MELHOR !

Recebi no meu Email uma mensagem digna deste PORTUGAL profundamente triste:

"Este anúncio foi publicado num famoso site de procura e oferta de
trabalho nacional. Um jovem recém-licenciado na área leu-o e achou que
devia responder à letra!

(A Revista Visão de 16 de Julho publica um artigo sobre o jovem que
deu esta resposta!)

ANUNCIO:
A (...não me indentificaram o nome da empresa...)está a aceitar candidaturas para estágio na área de Design
Requisitos Académicos: Finalista ou recém-licenciada(o) em Design
Competências pessoais:
* Poder de comunicação;
* Iniciativa;
* Auto-motivação;
* Orientação para resultados;
* Capacidade de planeamento e organização;
* Criatividade
Competências técnicas:
Conhecimentos nos seguintes programas/linguagens
- Adobe Photoshop,
- InDesign,
- Illustrator (FreeHand e Corel Draw) Flash,
- Dreamweaver,
- Premiere,
- AfterEffects,
- SoundBooth,
- SoundForge,
- AutoCad,
- 3D StudioMax
- HTML (basic),
- ActionScript 2.0 (basic),
- CSS,
- XML.
Remuneração: Estágio Remunerado
Duração: 6 meses, com possibilidade de integração na equipa

Portanto, e resumindo, esta empresa quer um recém-licenciado que saiba
de origem 13 softwares e 4 linguagens de programação. Isto é o país em
que vivemos.
Não me ficando atrás perante esta pérola, decidi responder no mesmo
estilo. Eis o que lhes respondi:

Boa noite,
Estou a entrar em contacto para responder ao anúncio colocado no site
Carga de Trabalhos para a posição de estagiário em Design.
Chamo-me André Sousa, tenho 25 anos e sou um recém-licenciado em
Design de Equipamento (Fac. Belas Artes de Lisboa).
Sou extremamente comunicativo, transbordo iniciativa e auto-motivação,
estou constantemente orientado para os objectivos como uma bússola
para o Norte (magnético), sou mais planeado e organizado que o
Secretário de Estado de Planeamento e Organização e sou um diamante da
criatividade como já devem ter percebido e como vão poder comprovar
nas próximas linhas.
Quanto aos conhecimentos técnicos:
Sou um mestre em Adobe Photoshop.
Conheço o InDesign por dentro e por fora.
O Illustrator, Freehand, Corel e o Flash são os meus brinquedos do dia
a dia, faço o que quiser com eles.
Nem me ponham a falar do Dreamweaver, até de olhos fechados...
Premiere... Até sonho com ele!
AfterEffects tem um lugar especial no meu coração.
Faço umas coisas bem maradas com o SoundBooth e o SoundForge.
Com o Autocad e o 3d Studio Max até vos faço duvidar dos vossos próprios
olhos.
Html, Action Script 2.0, CSS e XML são as linguagens do meu mundo.
Mas sejamos francos, qualquer estudante de 1º ano sabe de cor e
salteado qualquer um destes 13 softwares e 4 linguagens de
programação...
Eu sou um recém finalista. E como tal tenho muito mais para oferecer:
Tenho conhecimentos de Cinema 4D, Maya, Blender, Sketch Up e Paint ao
nível de guru.
Tenho conhecimentos mega-avançados de C+, C, C++, C+ ou -, Java,
JavaScript, Ruby on Rails, Ruby on Skates, MySQL, YourSQL,
Everyone'sSQL, Action Script 3.0, Drama Script 3.0, Comedy Strip 3.0 e
Strip Tease 2.5, Ajax, Vanish Oxi Action, Oracle, Sonasol, XHTML,
Batman e VisualBasic.
Conheço o Office todo de trás pra frente assim como o Microsoft WC.
Domino o Flex ao nível do Bill Gates e mexo no Final Cut Pro melhor
que o Steven Spielberg.
Tenho ainda conhecimentos de grande amplitude em 4 softwares que estão
a ser desenvolvidos por grandes marcas e também de 3 outros softwares
que ainda não foram inventados.
Falo 17 línguas, 5 das quais já estão mortas e 6 dialectos de povos
indígenas por descobrir.
Com estes conhecimentos todos estou super interessado num estágio
porque acho que ainda tenho muito para aprender e experiência para
ganhar. Espero que ao fim de 6 meses tenha estofo suficiente para
poder fazer parte da vossa equipa e quem sabe liderá-la.
Fico ansiosamente à espera de uma resposta vossa.
Embora tenha uma oportunidade de emprego na NASA e outra no CERN
espero mesmo poder fazer parte da vossa equipa.

Cumprimentos,
A. S.

PS: Com um anúncio desses, a pedir o que pedem a um recém-licenciado,
é uma resposta destas que merecem. Peço desculpa se feri
susceptibilidades mas não me consegui conter.»

domingo, 2 de janeiro de 2011

Hoje andei a recuperar textos que escrevi, uns num ontem mais longínquo, outros num ontem mais recente. Três escritos poéticos, sem preocupações de estilo ou regra, apenas revisitações de sentimentos e de palavras:

Quem sou ?

Como se pode descobrir sem se conhecer,
quanta diferença pode ter
o significado de vir correndo pelo tempo,
esperando passivo a revolta de não conseguir
ser diferente ao pretendido por ser.

Como posso descobrir o que de mim há-de vir,
se só consigo escrever quando em fuga me meto,
por caminhos de fumo ou de vinho bebido.
Não será aquilo que escrevo outra cousa que não sinto,
outra estrada de tempo ?
Porque, enquanto me oiço,
falando em silêncio,
a mim próprio mostro aquilo que gostava de sentir,
como sendo outro,
em vez do que pareço.

Mas…
se não sou eu, se sou outro,
como posso saber qual dos dois em verdade me sinto ?

*****

Quando descobri Pessoa,

Quando descobri Pessoa,
pegava num livro ao acaso.
Passava pelo tempo, folheando páginas sem ler,
descobria palavras que não sentia,
vivia desconhecendo que sabia sem saber,
que todo o sentimento pode ser,
apenas, vida.

Quando descobri Pessoa,
- Um dia... –
percebi que podia ver,
quanto uma criança pode ser poesia
ou um sentimento ser sentido.

Quando descobri Pessoa,
encontrei razão ao meu medo.
Ignorei-lhe a rima, e à pontuação não lhe liguei,
porque não era isso que me fazia saber
quanto eu sofria, quanto de cego estava perdendo.

Por isso.
- Obrigado Pessoa ! -.
Porque se a terra nos separa,
sentir nos une.

E, apenas, lamento,
a pena que eu tenho de não te conhecer em vida, d
e não te saber em jeito.
Porque, decerto, contigo abraçaria as palavras corridas,
de tudo o que se sente pela vida,
para que se grite de alma sentida no tempo.

Por isso.
Escrevi-te no meu diário,
copiei-te no meu quotidiano.
- Que importa que digam –
Usei-te, escrevendo palavras ditas em textos meus.
Porque, decerto que acreditarias
quanto de ti, poeta incompreendido,
em mim me vejo escrito.

Adorei conhecer,
que tu, Poeta,
em vida eras um ser
em escrita mais que um mundo,
mas sempre Fernando Pessoa.
Um homem com saber,
em que "crer é morrer",
mas amar é ter sentido.
E, por muita ilusão que pareça,
ensinaste-me: que é pensamento que se deseja.

Portanto,
não me digam, que em ti
- Fernando -
somente soa solidão e amargura escrita,
porque senão, pergunto:
desde quando, querer
“… considerar-me e ver aquilo que sou... “
não é poesia de humana pessoa ?

*****

[Justificações que a Razão desconhece]

Tudo é diferente quando me procuro,
por palavras que escrevo
em papel liso com tinta corrente.
Tudo é diferente quando por mim penso,
quando por mim sinto.
Tudo é diferente quando por minha mão,
posso dizer tudo, posso dar grito.

E se por entre momento,
em estradas distintas caminhando,
hajam pensamentos corridos,
– apenas porque quero ser diferente –,
antes andar fugido,
por entre mágoas e sentimentos
do que esconder o que penso, não escrevendo o que sinto.

Que vergonha pode haver
no chorar as palavras que oiço, se são verdade em desejo ?

Porque me obrigo a continuar naquilo que não quero ser ?
Porque continuo a não acreditar naquilo que sinto ?
Porque não me hei-de compreender no que sou ?
Se são imagens que persigo,
se são vozes que reconheço
em razões que rimam nos passos que dou,
com os sentimentos que comigo habitam.

Porque não hei-de ver
que o gosto de estar nesta forma distante,
é sentir que não se compreende,
é alma fria iludida;
é tudo interrogação diferente.

Um Natural Engano

Folheando o caderno onde guardo os textos que escrevi, encontrei o artigo que publiquei no «Jornal de Sintra», Escuta, Zé Ninguém !, e relembrei as leituras que fiz desse perturbador livro de Wilhelm Reich e da sua amargurante e pessimista actualidade. As palavras de então, encaixam sem uma folga nos momentos de agora, pelo que volto a citar, como se de exorcismo se tratasse, “o grande homem é, pois, aquele que reconhece quando e em que é pequeno. O homem pequeno é aquele que não reconhece a sua pequenez e teme reconhecê-la; que procura mascarar a sua tacanhez e estreiteza de vistas com ilusões de força e grandeza alheias.”
O Dejá vu da situação fez-me recordar os primeiros quatro anos da década de noventa e o que, então, escrevi:

Um Natural Engano

Em toda a natureza,
como sinal de vidas,
por entre céus, mares e terras luminosas,
de tonalidades e expressões devidas,
através de efeitos onomatopaicos de linguagens misteriosas,
com o seu quê de interpretação desconhecida,
encontramos no dia a dia
uma fala que nos é dirigida:
- a abelha que zumbe,
- o bode que bodeja,
- o boi que arrua,
- o burro que orneja,
- o camelo que blatera,
- a cobra que sibila,
- o corvo que crocita,
- o crocodilo que chora,
- a doninha que chia,
- o elefante que brame,
- o ganso que grita,
- a gralha que grasna,
- a hiena que uiva,
- o leitão que cuincha,
- o macaco que guincha,
- a mosca que zoa,
- o papagaio que palra,
- a pega que tagarela,
- o porco que grunhe,
- a rã que coaxa,
- a serpente que assobia,
- o urso que ronca,
- a vaca que muge.

....

Mas... oh, deuses !!
por natural engano
encontrámos, depois disto tudo,
em vulgares discursos diurnos,
um incómodo elemento
por entre toda esta vastíssima gama cantante
- nomeada em tal pandorga -
emergindo, qual surdo-falante,
simplesmente... um erro !
Era animal diferente,
que cismou ter o poder
de dominar o silêncio inteligente
através de ignorâncias sonoras,
no ser senhor com cognome de voz urrante,
tendo-se como Rei da Selva
de arrogâncias sentidas e perfiladas
e fomes endinheiradas e desmedidas.

Só que também... por natural sentença divina,
traia-se tal semelhante intenção de rugido,
do suposto Rei da Selva.
Pelo que de desconhecido se conhecia,
quando no sussurro de constante deletrear troca,
por vómito incompreensível de tamanha voz dissonante,
se escrevia após o "R"
o acrescento "ui" ditongolante,
e se repetia, agora de forma mais despreocupante,
que o antigo fonema "e" conhecido
se tinha transformado em vogal "i" dominante
sempre que bocal som se ouvia.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

«No estado em que se encontra o país, os homens inteligentes que têm em si a consciência da revolução – não devem instruí-lo, nem doutriná-lo, nem discutir com ele – devem farpeá-lo. As Farpas são pois o trait, a pilhéria, a ironia, o epigrama, o ferro em brasa, o chicote – postos ao serviço da revolução.»

Eça de Queirós




ONTEM

Este país está «floribelado».
Reconheço que sou um insatisfeito com a vida, e não me estou a referir às situações em que ela me tem sido madrasta. No entanto, mesmo possuindo um sentir pessimista, considero que não sou um integralista descrente, vivendo em completa bruma tediosa. Por vezes não consigo acompanhar o actual ritmo da vida, mas isso não significa que esteja preso às ideias do meu passado, recorrendo à máxima de que no meu tempo é que era bom, contudo, sou obrigado a reconhecer que dou comigo, frequentemente, a sentir que não me enquadro com a «nova» mentalidade quotidiana, ora de braço e mão esticados, ora de «mãozinha» revirada para cima em gemidos desfalecidos, retorquindo asperamente o desabafo do Júlio Dantas, “isto é só para safados!” e “safadinhos”.
Abordaram-me – simpaticamente diga-se de passagem, apesar do formalismo do agendamento do «encontro» profissional –, para me tirarem algo do meu saber e contando que, em prol de não sei o quê, colaboraria com algo que não concordo. Estão, nestes últimos anos a matar um projecto de trabalho, construído e assente, não na vontade individual, mas sim numa ideia estudada, defendida e aplicada por gerações de profissionais das ciências documentais, há mais de três décadas.
Estas novas gerações de dirigentes, nados e criados nos grupos juvenis dos partidos políticos, que chegaram por estes últimos anos ao poder são, de facto, um produto das circunstâncias. Não possuem cultura geral nem cívica. Julgam que vestir um fato preto com uma gravata cinzenta, do Hugo Boss, ou conduzir um Audi, em segunda mão, lhes dá o estatuto e a experiência.
Muito recentemente um homem – que obviamente não posso identificar –, que apesar de estar na política por ambição pessoal, não esqueceu a educação e os princípios de convivência recebidos dos senhores seus pais, disse-me que havia muita falta de reflexão sobre os comportamentos, que alguns dirigentes se esqueciam da diferença entre o estar e o ser, porque, simplesmente, eram produtos da falta de cultura existente neste pequeno Portugal. E isso acontecia, porque não tinham, ainda, o tempo necessário para obter a sabedoria de vida, ou porque viviam, exclusivamente, do imediatismo encontrado no poder de ser.
A conquista do poder, por parte destas gerações, cultural e humanistamente, híbridas é feita numa base de astúcia e em abandono de qualquer seriedade. Para eles não é preciso ter ideias provenientes do estudo, da análise e da discussão, não sentem, até, a necessidade de conhecer o espaço e o homem que os rodeiam, porque o único objectivo que norteia a sua vida é manter o poder conquistado, seja pela bajulação a quem está acima seja pelo caciquismo opressivo sobre quem está por baixo.
Esta aplicação do medo e da insegurança como método de gestão, embrulhado em traiçoeiros beijos e de falsos cumprimentos, leva-nos a pensar que o mérito de subir mais alto e que a vontade de dar o nosso melhor só conduz ao sermos mais detestados e mais insultados. De um momento para o outro, através de vozes e engraxamentos subservientes, somos passados a bodes expiatórios de mesquinhas ambições e de sobrevivências realizadas a todo o preço, impondo-se o nosso afastamento, não só como potenciais inimigos concorrentes, visto sermos declarados conhecedores das fraquezas, das incongruências e das apropriadas mudanças dos tempos e das vontades.
Segundo o historiador Fernando Rosas, este nosso Portugal dos pequeninos tem uma administração e uma sociedade com uma longuíssima história de delação, correspondendo a um figurino sociopolítico das sociedades subdesenvolvidas, em que a delação é um subproduto da miséria, do atraso e da falta de atitude cívica e solidária. De facto, posso confirmar esta premissa, porque durante os meus recentes estudos, deparei-me com centenas de manuscritos, anonimamente codificados, relatando situações, propósitos, opiniões e acontecimentos, em denúncias nominais, começando, praticamente, todos eles, pela frase «consta que». Há data a que o meu estudo se reporta, estes nomes denunciados – que nada têm de anónimos –, sofreram com a humilhação da prisão, a dor física da tortura, o ostracismo do medo. Hoje, adormecidos pelo sol da democracia, acabamos por nos prendermos na dignidade do silêncio, na procura de vencer na serenidade do estar e na generosidade do esquecimento, para ultrapassar os momentos e as indignações a que somos sujeitos.


HOJE

Dia normal, sem traumas nem tramas.
Continuo magoado e desiludido com o Portugal dos pequeninos. Mais uma vez vieram ter comigo com explicações esfarrapadas e lágrimas de crocodilo. Compreende-se, não vá o diabo tecê-las…
Tenho que procurar não falar demasiado, não porque tenha receio de represálias, mas porque me dói. Sempre disse o que pensava e espero poder continuar a fazer o mesmo.
Aliás, cada vez gosto mais dos meus cães e da sua sinceridade de olhar.

domingo, 6 de junho de 2010

Actualidades - I

Comecei a reler as Farpas de Eça e Queirós e de Ramalho Ortigão.
Meu Deus! Que aflição, passaram 137 anos e tudo está na mesma.
Vejam a actualidade desta passagem escrita em Maio de 1871:

«O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima a baixo! Toda a vida espiritual, intelectual, parada. O tédio invadiu todas as almas. A mocidade arrasta-se envelhecida das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruína económica cresce, cresce, cresce. As quebras [= falências] sucedem-se. O pequeno comércio definha. A indústria enfraquece. A sorte dos operários é lamentável. O salário diminui. A renda também diminui. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.
Neste salve-se quem puder a burguesia proprietária de casas explora o aluguel [Aluguel = Aluguer]. A agiotagem explora o juro. A ignorância pesa sobre o povo como uma fatalidade. O número das escolas só por si é dramático. O professor é um empregado de eleições. A população dos campos, vivendo em casebres ignóbeis, sustentando-se de sardinha e de vinho, trabalhando para o imposto por meio de uma agricultura decadente, puxa uma vida miserável, sacudida pela penhora: ignorante, entorpecida, de toda a vitalidade humana conserva unicamente um egoísmo feroz e uma devoção automática. No entanto a intriga Política alastra-se. O país vive numa sonolência enfastiada. Apenas a devoção insciente perturba o silêncio da opinião com padre-nossos maquinais.
Não é uma existência, é uma expiação.
A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-se por toda a parte: o país está perdido! Ninguém se ilude. Diz-se nos conselhos de ministros e nas estalagens. E que se faz? Atesta-se, conversando e jogando o voltarete [Voltarete = Antigo jogo de quarenta cartas jogado por três ou quatro parceiros], [enquanto] que de norte a sul, no Estado, na economia, na moral, o país está desorganizado – e pede-se conhaque! Assim todas as consciências certificam a podridão; mas todos os temperamentos se dão bem na podridão!»

A decadência mantém-se, independentemente dos balões de oxigénio vindos da CEE.
Depois deste momento de narcisismo puro, regresso à actualidade dos textos queirosianos, subscrevendo as palavras do escritor Miguel Real quando este nos diz que «sob a diferença da conjectura vibra hoje, estruturalmente, o mesmo Portugal que Eça conheceu nas décadas de 80 e 90 do Século XIX: Instituições bloqueadas ou ineficazes (Justiça, Educação, Saúde), uma classe política genericamente medíocre – refugo, em todos os partidos, das notáveis direcções refundadoras da democracia –, uma Assembleia da República de funcionários, em que mais sobeja o interesse do que o pensamento, um empresariado especulativo, assente no betão e no comércio de curto prazo, elites jogando com a sorte, visando a fama sem o suor do estudo e do trabalho, um povo bárbaro rastejando em Fátima ou ululando em estádios de futebol, de olhos guardados numa televisão vocacionada para mentes imbecis, frequentando os delirantemente maiores centros comerciais da Europa.» [Miguel Real. O Último Eça, 2006. p. 11]

Vivências - I

Ontem, tive um fim de tarde agradável, na Ericeira – enfim, fica salvo o passar do tempo –, encontro calma e a suavidade de um entardecer de verão, e, até, algum divertimento numa ida a uma retrosaria com balcão de madeira e armários com portas de vidro, cenário comercial do nosso «passado». Mal entramos naquela loja ficamos rodeados de rolos de tecidos, lisos e estampados, coloridos ou de uma única tonalidade, empilhados ao sentido das cores, das texturas e dos propósitos. Chitas para um lado, algodões para outro, à esquerda os linhos, à direita as sedas, em quantidades e padrões definidos pelo preço do metro e da lei da procura e da oferta. Em frente dos nossos olhos perfilam-se molhos de fechos éclairs, fitas e debruns e gavetas de linhas e botões, tudo pronto para satisfazer as necessidades e as vontades dos clientes.
Aproveito o ambiente e informo a empregada que lhe venho pedir que me faça a bainha das calças se aqueles tecidos de flores e aqueles forros brancos, medidos a metro-padrão de madeira, se sobrepuserem às minhas prioridades dependentes dos afazeres domésticos de corte e costura de casa.
Saio com a promessa de que a minha necessidade será satisfeita, após o jantar com as minhas cinco mulheres, quatro Marias e uma Ana, no «Pinta», que agora é uma pizzaria, mas que já foi cervejaria, premiada pela frescura e qualidade dos mariscos e da sua açorda.
Sinto-me um Rei. De facto, reconheço que sou um homem privilegiado – e, apesar de todo o pessimismo sentido neste Portugal -, que vive rodeado de afecto e dedicação.

Oh!... Que Portugal este!... Que Fado!

Mais um dia passado.
Acredito que tudo isto ainda possa mudar. «A renovação é uma lei da vida». E apesar dos desencantos, facadas e pontapés que temos apanhado – «temos muitas cicatrizes na alma» –, acredito que ainda se possa manter a integridade moral e a cabeça erguida, resistindo de modo a que esta comédia não se transforme em tragédia e que as situações deprimentes destes dois últimos tempos não sejam reflexos de tiques de autoritarismo, de ameaça e de subserviência.
Estou a fazer “limpezas” no portátil e não consegui apagar um “apontamento” (parte de um texto) que escrevi e publiquei na extinta revista sintrense, «Vária Escrita». A sua actualidade e o seu sentir mantêm-se presentes, pelo que, novamente, o registo:
«António Sérgio, nos seus Ensaios, questiona quais as «condições especiais» que existem no nosso país e, naturalmente, o porquê delas existirem, para ter havido um suicídio de um Antero, de um Camilo, de um Soares dos Reis, de um Costa Ferreira, de um Júlio César Machado, de um Mouzinho de Albuquerque, de um Manuel Laranjeira, de um José Fontana, entre outros.
Na sua amargurada interrogação, António Sérgio pergunta-nos, em suas palavras, “(...) porque há tanto vil, co’a breca, entre os "intelectuais" desta terra, e tanto escarninho odiador de toda reverberação do espírito; (...) porque é que tudo que vale sofre o desprezo aqui, ou o ataque, a traição, o abandono, a chufa; porque é que a sarça da retórica, tão invasora e fértil, a do psitacismo expansivo, a da estupidez invencível, sempre reconquistam todo cantinho de agro que porventura uma personagem de excepção cultiva; porque é que tudo que surge de realmente bom, de probo, de saudável, de inteligente e nobre, - se perde, definha, degenera ou morre, neste ambiente inóspito; porque é que no nosso país, mais que em qualquer outro, os "núncios de um futuro longínquo" são sempre “vitimas de um presente cruel” ?” (António Sérgio. Ensaios (Tomo I). 3ª Ed. Lisboa. Sá da Costa, 1980. pp. 92-93.).
Sem saber dar uma resposta precisa nem solúvel sobre o fenómeno plural apontado, somos de opinar e reconhecer que, ainda hoje, é legitima e cheia de actualidade a interrogação sergiana, mesmo havendo o abandono “generalizado” do sentimento suicida vivido na passagem do século XIX para o XX.
As fatalidades e as apatias, as angústias e as duvidas encontradas no passado, perseguem-nos pelo tempo, repetindo-se a gladiatura das incertezas nas crenças de ser ou não ser por um Deus qualquer, com mais ou menos fundamentalismos exacerbados, do abandono da troca de opiniões pelas manifestações cegas do individualismo totalitário, da substituição de princípios e de noções de convívio e de civilidade, pelas imposições dos sentimentos de medo que se passeiam armados de canos serrados em auto-estradas, da obscuridade das decisões impostas pela globalidade de uns poucos sobre a identidade e o querer de muitos outros, da morbidez dos desânimos causados pela falta de realização dos sonhos, ou do azedume quotidiano dos apertos e das filas indetermináveis do trânsito, pela identificação de propósitos e desejos colectivos, da transformação do suspirante abraço de solidariedade, no cinismo do desvio dos pacotes de esparguete ou de arroz agulha, saídos do armazém do “banco da fome”, do sumptuarismo do verbo possuir e do mundo colorido do engano do cartão de crédito, propagandeado no leve agora e pague depois, pela consciência do limite e da sensatez, da falsa felicidade dos momentos prometidos nos argumentos das telenovelas ou da glória de uma fama televisiva, encontrada em comentários falados, em mundos “vip’s”, entrevistas acorrentadas ou em “big brodianos” ópios que anestesiam o nosso pensar.
Em suma, os tédios e os pessimismos do nosso “fado” em nada mudaram, apenas as formas de se manifestarem e os intervenientes, porque, de facto, continuam a ser os tempos da dança dos liberalismos sem rosto ou das derrocadas dos mundos ditos socializantes, ou, simplesmente, das ditaduras subtis pela existência da falta de alternativas. Continuamos a viver na ideia oitocentista do descrédito total do papel da função e do desempenhar político, sustentado pelos permanentes desgovernos e corrupções dos aparelhos governativos e pelos viciadas e vendidas promessas sobre a “terra prometida”, gritadas tantas vezes nos cortes de estradas, fabricadas nas capas dos jornais que melhor vendem ou nas sondagens telefónicas de números mágicos. São as dúvidas e as incertezas constantes no sistema financeiro e nos resultados económicos, de uma bolsa que está sempre em perda, mas que nunca entra em falência, a par do desespero e da impotência de não sermos ninguém nas questões internacionais, de não termos submarinos, porta-aviões ou mísseis intercontinentais. São os desencantos pelo reconhecimento de que o único desenvolvimento declarado é o do obscurantismo, da ignorância e da ausência de soluções que, apenas, alteram os dados de podermos ser mais que os outros, porque se de seis estádios apenas se precisava, fizemos dez no culto do principio da vaidade e da fachada. Em suma, são os tempos em que também se vive na renúncia, com a indiferença, o cansaço e o pessimismo demolidor de quem sabe que para haver a diferença desejada, vamos ter de entrar numa outra lista de espera até “sentirmos o desejo de ser civilizados e, não apenas, contentarmo-nos só em parecê-lo” (Bernard Martocq. Manuel Laranjeira et son temps. Paris. FCG. 1985. p. 662 [Carta remetida a Miguel de Unamuno, provavelmente em Abril de 1911])».