quinta-feira, 28 de janeiro de 2016


ERICEIRA

 

Vista através do escrito de J. F. Henrique Nogueira, publicado no ‘Jornal Literário e Instrutivo da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis’, “O Panorama”, de 26 de Outubro de 1844 [2ª Série, Vol. III, nº 148, p.335].

 
«A Vila da Ericeira, situada na costa do Oceano três léguas ao Norte de Sintra e uma e meia ao Poente de Mafra, é uma povoação de antiga data e quase toda habitada por homens dados ao trato marítimo.
El Rei D. Afonso IV lhe deu Foral em 17 de Maio de 1369, e posteriormente D. Manuel o reformou em 1513. Em documentos antigos é conhecida por Oyriceira e Eyriceyra. E daqui vêm ser as armas do Concelho um ouriço. Consta que primeiramente pertencera à Paróquia de Mafra. Os mais antigos assentos da separação são de 1406. A actual freguesia é da invocação de S. Pedro e foi edificada nos princípios do século passado, prestando auxilio o Sr. D. João V.
O estabelecimento mais importante que esta Vila possui é a Casa da Misericórdia, a qual foi fundada, onde havia uma ermida do Espirito Santo, por Francisco Lopes Franco em 1678. Este doou-lhe um padrão de juro de 480:000 Reis, e os pescadores obrigaram-se a pagar-lhe anualmente todo o ganho de uma rede de pesca, cujo ónus solveram pela quantia de 6:400 Reis que ainda hoje pagam cada um dos dez barcos de pesca. O rendimento actual em juros e foros é de Rs. 1:679$700. Despende com encargos pios e despesa do culto 725$300, e com o hospital 479$300. O excedente da receita é empregado em esmolas e vestuário aos pobres.
Os habitantes empregam-se pela maior parte nas pescarias ao longo do nosso litoral, na costa de Marrocos e também já fizeram três expedições ao Banco da Terra-Nova nestes últimos anos. O número de embarcações de todos os lotes, incluindo as do comércio de cabotagem é de 98, empregando 670 indivíduos. A população orça por 2769 almas com 750 fogos; no princípio deste século tinha apenas 600.
O forte que a estampa representa está sobranceiro à calçada que dá para a praia e hoje acha-se desguarnecido. Segundo se depreende de uma inscrição sobre a porta foi edificado por D. Pedro II, em 1760.
No chafariz chamado a Fonte do Cabo existe uma pedra embutida na parede com um emblema e legenda em caracteres góticos em relevo que parece significar, Feita na Era de Mil e Quatrocentos e Cinquenta e Sete Anos.
Ainda existem restos do Palácio do senhorio desta Vila, o Conde da Ericeira: pela parte superior de algumas janelas veem-se pedras com um leão esculpido. Estas paredes, a que o povo chama o Paço, são dignas de veneração por terem servido de residência, e quem sabe se de academia, ao nosso douto escritor D. Francisco de Menezes.
A meia légua ao Nascente desta Vila está aberta uma mina de barro branco no sítio chamado a Avesseira, que já tem sido explorada por conta das fábricas de louça das Janelas Verdes e Vista Alegre.
Também por este mesmo sítio é situado o chamado Pinhal dos Frades, por ter pertencido ao Convento de Mafra. É uma importante propriedade nacional assim pelo número como pela bondade e préstimo das árvores, que excedem em diâmetro e altura as de todos os outros pinhais circunvizinhos.»
[J. F. Henrique Nogueira]
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Em percursos de leituras e releituras
MONUMENTO DE ODIVELAS
Perto do Convento de Odivelas, num outeiro junto ao caminho que vem de Lisboa, sobre o qual se estendeu a povoação de Odivelas, ergue-se um monumento que a tradição popular denomina 'Monumento de D. Dinis'.
Na diferença do suporte e numa passagem do tempo:

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016


A HISTÓRIA REPETE-SE SEMPRE, PELO MENOS DUAS VEZES


A presente imagem, retirada do semanário ilustrado Branco e Negro, de 26 de Abril de 1896, captando o momento de paragem e descanso dos setenta e dois ciclistas, sócios da associação lisboeta ‘Velo-Club’, no seu organizado e empreendido primeiro passeio oficial a Queluz faz-nos pensar que passados 120 anos a moda da “bike” e do circuito ciclístico domingueiro, pelas estradas dos arrabaldes de Lisboa, não é, afinal, tão original como fenómeno de época, como se pretende que seja.
 
Segundo a mesma notícia, também este evento de manifesta expressão física, de um grau de dificuldade inerente ao esforço praticado e reconhecido no propósito do seu percurso – admitimos nós, efectuado por caminhos sinuosos e acidentados, irregularmente empedrados ou de macadames esburacadas –, apresenta-se como uma realização de salutar registo e de grande incremento na sociedade portuguesa. Aliás, ignorando-se o elemento de diferença tecnológica e o seu factor de conforto decorrente, existente entre as ‘máquinas’ e os ‘equipamentos acessórios’ das duas épocas, o obstáculo da prática da actividade ciclística consegue ser comparável às actuais dificuldades impostas a quem a pratica hoje por percursos de “todo-o-terreno” ou palmilhando os infindáveis quilómetros de alcatrão, numa partilha forçada de faixa de estrada e de perigos decorrentes. E isto, não esquecendo que, então, as maiores preocupações ambientais seriam evitar-se as bostas deixadas pelos animais, enquanto, agora, nestes tempos de modernidades circulantes, há que pensar nas inconveniências das sucções dos fumos saídos dos tubos de escape.
Paralela e independentemente da passagem do tempo, mantém-se um ponto final convergente na organização destas marchas, honradamente documentados como acto de dedicação, propósito e vivacidade de actividade: tudo finda num bom, demorado e regado almoço.
 
***
 
Três números depois, a revista Branco e Negro, agora de 17 de Maio, volta a abordar o assunto dos exercícios da educação física que estão a ser incrementados na sociedade portuguesa. Desta vez pegando num ‘passeio de andarilhos’, também ele iniciado em Lisboa e com términus junto ao Palácio de Queluz.
Apesar de não ter havido uma participação significativa – afirmando-se na reportagem ser incompreensível a razão da limitada aderência em virtude de ter havido um prévio acordo de associações –, a actividade reuniu trinta e seis ‘rapazes’ que vestidos com o vestuário apropriado e calçados de alpercatas brancas de sola de cortiça, percorreram o longo percurso, iniciado em Lisboa pelas seis e trinta da manhã, de uma forma rápida e sem percalços, chegando a Queluz na ‘melhor disposição de espírito e de corpo’.
Também aqui, e em proveito de oportunidade, somos de admitir que estes andarejos de finais do século XIX têm em fundamento e objectivo as mesmas razões que as actuais actividades de passeios pedestres.
Na realidade, em leitura de pensamento hegeliano, ‘A HISTÓRIA REPETE-SE SEMPRE, PELO MENOS DUAS VEZES’.
 

 

Eugénio Montoito

Baleia. 27 de Janeiro de 2016

 

‘UMA PROCISSÃO EM CANEÇAS’


Retirado do semanário ilustrado lisboeta Branco e Negro, de 17 de Janeiro de 1897 [1º Ano, nº 42], inserido numa rúbrica, apenas com imagens, denominada ‘Portugal Pittoresco

(Fotografia de A.Ben-Sande)
 

domingo, 20 de setembro de 2015


“Diz-me e eu esquecerei,
Ensina-me e eu lembrar-me-ei,
Envolve-me e eu aprenderei”

Provérbio chinês

 

No sábado passado (12 de Setembro), o “Expresso” publicou na sua revista um artigo sobre a Escola “mais elitista do mundo”, o Elton College.
Esta realidade não me impressiona nem me atrai, pois ela representa, para mim, o privilégio exclusivo do dinheiro e o segregacionismo que a sua posse cria.
Segundo o artigo, «o ensino em Elton College [‘pouca coisa mudou no último século’] continua a ser de luxo, sustentado em 2015/16 por uma propina anual de 35.721 libras (€ 48.884) por aluno, um valor-base (…) ao qual se têm de adicionar várias despesas suplementares com uniformes, lições de música ou viagens de estudo».
De igual modo, não me espanta que o “Elton College” (e todas as outras escolas de igual modelo espalhadas por este mundo), a par das suas instalações de aulas, tenha estúdios de artes plásticas, bibliotecas, salas de teatro e de música, laboratórios de línguas e para outras aplicações científicas, salas de actividades complementares, pavilhões desportivos, piscinas e salões multifunções e, no seu exterior, espaços adaptados a várias práticas desportivas, criando esta dimensão edificada, por si, a demonstração dual do privilégio e da diferença para com a realidade comum.
O que, na verdade, me impressiona e acaba por me incomodar é a falta de sensibilidade, a pouca inteligência e a existência de opções que ignoram a procura do bem colectivo, manifestados pelos nossos governantes, ao não seguirem estes exemplos de estratégia de gestão educacional e os adaptarem à nossa realidade e à nossa dimensão económico-social.
Obviamente que compreendo que haja um propósito, por parte das elites e dos seus ‘cabos-de-mão’, de não desenvolver acções que possam proporcionar uma igualitária oportunidade, para que desse modo possa sempre haver uma estratificação social constituída por poderosos, capatazes colaboracionistas, plebeus e, no fim da pirâmide os descartáveis. De igual modo compreendo que a elite mundial procure assegurar o seu mundo de poder, numa espécie de rede de influências identitárias, assente numa filosofia de vida e de ligação entre os seus ‘discípulos’.
Ora, a educação é um perfeito processo para criar essa ligação e essa rede. Por isso, os meios e as oportunidades proporcionadas por esta escola correspondem a opções pedagógicas ideais para desenvolver um sistema de ensino e, consequentemente, de aprendizagem estimulante e construtor de valores, atitudes e competências que permitem aos jovens estudantes adquirir, a par de um conhecimento específico, autonomia, criatividade, desempenho eficaz e destreza de liderança.
Mas, a essência substantiva (passe a redundância) deste modelo pedagógico que proporciona a concretização dos objectivos de criar uma elite dentro das sociedades está para além das particularidades das edificações, das suas especializações e dos hectares que elas possam ocupar. O modelo assenta nos pormenores observados no acompanhamento do aluno e da sua vida académica e social, através de tutorias permanentes, na metodologia de ensino que impõe a existência de turmas de dez ou pouco mais alunos, ministradas por professores de nível profissional elevado, quer, ainda, na aplicação de recursos humanos específicos para a educação, que inclui pessoal profissional envolvido de forma directa no ensino e instrução dos alunos, de professores de acompanhamento nos períodos de estudo, de professores do ensino especial e outros profissionais que trabalham com turmas completas ou com pequenos grupos/ou individualmente em salas de recursos ou no exterior da sala de aula regular, como também, toda uma panóplia de pessoal cujas funções estão incluídas na gestão normal da escola.
A aplicação deste critério metodológico de ensino é que me impressionou, deveras, pois por aqui podemos ver quanto errado estão os decisores que governam a nossa educação. Estão errados quando estabelecem as sustentabilidades económicas do nosso ensino e, sem apresentar qualquer justificação, reduzem brutalmente os apoios, ignorando as expectativas dos alunos, os transtornos familiares e as consequências laborais e de funcionamento das instituições educativas. Estão errados quando estabelecem os critérios metodológicos dizendo que as turmas têm de ter trinta alunos (ou um pouco mais), que os horários dos alunos têm de ser preenchidos com programas enciclopédicos, rígidos, inflexíveis e que aulas no exterior ou visitas de estudo são luxos desnecessários.
Noutras reportagens, temos lido que em pequenas nações, também elas sem ouro, petróleo ou grandes domínios empresariais, com economias alteradas e reestruturadas, nas últimas décadas, conseguiram deixar de ser países dominantemente rurais para passarem a ser reconhecidos como países tecnologicamente avançados, sendo a razão da alteração apontada como resultado do que foi feito nas áreas da educação.
Ter uma dezena de alunos, ou um pouco mais, por professor não é uma metodologia exclusiva do “Elton College”, ela é, isso sim, uma das medidas escolhidas pelos países que mais apostam na educação como processo fundamental do recriar permanente das suas bases humanas e sociais. A Dinamarca, a Irlanda, o Luxemburgo, a Holanda, a Suíça e os Estados Unidos que têm os professores com salários mais elevados, depois de 15 anos de experiência, são exemplo disso, enquanto a Austrália, a Finlândia, a Noruega e, novamente, o Luxemburgo apresentam os rácios mais baixos entre alunos/professores.
Segundo as finalidades educativas para o séc. XXI, defendidas por Jacques Delors no seu relatório “Educação um Tesouro a Descobrir”, entregue à UNESCO em 1996, as ideias de aprender a ser aluno, aprender a conhecer, a fazer e a viver com os outros, são parte integrante e indissociável do percurso educativo que visa contribuir tanto para o sucesso escolar, como também formativo de cada aluno, pelo que o processo de ensino e o ambiente de aprendizagem são, por excelência, os elementos estratégicos de qualquer sistema de educação.
Compete ao professor ajudar a apreender a matéria curricular e, simultaneamente, ensinar os alunos a compreender a complexidade do mundo que os rodeiam. A primeira, através da exposição e debate na sala de aula e na ‘descodificação’ e leitura dos manuais e sebentas e, a segunda, através de processos que remetam os alunos para contacto com conteúdos que proporcionem o entendimento do seu património memorial, das tradições comunitárias, da natureza envolvente, das culturas diferenciadas e do meio social onde eles se inserem, para que, desse modo, eles fiquem dotados de instrumentos que lhes permitam, numa dualidade constante, resolver problemas e situações fundamentais do seu dia-a-dia e aprender a analisar a realidade através de posicionamentos críticos que lhes possibilitem contribuir e fomentar, durante a sua participação na vida social, o respeito dos valores democráticos, das diferenças de pensamento e dos direitos à vida e à sua fruição.

 

Um Povo pode perfeitamente prescindir de uma auto-estrada, de um campo de futebol ou de um submarino porque a inexistência destas ‘particularidades’ não altera a vida desse povo. Mas já não podemos dizer o mesmo se não houver educação (sempre vista como conceito de qualidade e não do que é possível haver). Ela é um direito fundamental de vida do individuo e da sua representação social, porque através dela os povos conseguem garantir o seu desenvolvimento, a sua identidade como grupo e, consequentemente, o apreender, o compreender e o saber aplicar e cumprir os seus direitos e os seus deveres como seres humanos, na perspectiva correcta de sobrevivência e de perpetuação da espécie.
Há ‘gorduras’ no Aparelho do Estado que têm que ser cortadas. Concordo com a contestação do facto, mas discordo, em absoluto, sobre as partes da identificação dessas ‘gorduras’. Os excessos não estão nos números de médicos, polícias, professores, arqueológos, juízes, administrativos, motoristas, assentadores de via, bibliotecários ou arquivistas que o nosso funcionalismo público possui, o excesso está nas mordomias e nos mordomos que existem colados ao aparelho. O Estado e os nossos governantes devem ser capazes de, dentro das áreas das suas competências, dominar os conhecimentos, as metodologias e técnicas de trabalho que levem a aplicação de alternativas equilibradas e justas que assegurem os padrões de excelência e a conveniente sustentabilidade da vida dos seus povos.
Ao nível do ensino, o Estado e o governo português deve conceber, planificar, organizar e conduzir o mesmo, de forma a conceptualizar e gerir as diversas situações de ensino, promovendo uma atitude científica e desenvolvendo estratégias conducentes à promoção das aprendizagens e da qualidade pedagógica do ensino e da escola.
O ‘saber fazer’, o ‘saber pensar’, o ‘saber viver’, o ‘saber partilhar’, o ‘saber dizer’, retirado da “Grelha pedagógica dos actos fundamentais da educação”, elaborada há mais de três décadas pelo sociólogo M. Jacques Grand´Maison, não devem ficar encerrados no tempo de aprendizagem escolar. Estes ‘saberes’ são mais do que princípios de estratégia pedagógica, eles são bases coerentes e dinâmicas de uma política de desenvolvimento social em que o conhecimento da realidade do meio, o compreender a escola como um lugar privilegiado para desenvolver o gosto por uma reflexão séria, autónoma e exigente, e educar a responsabilidade de se viver em comunidade e, incessantemente, renovar as relações dialécticas entre as liberdades individuais e as necessidades colectivas, o cultivar a qualidade das relações sociais e o promover uma mentalidade de aproximação entre as pessoas na aceitação da diferença de cultura, vivência e pensamento, são partes de um todo de uma forma de sentir e agir de um Estado e de um Governo de Bem.

 

SER POLÍTICO NOS DIAS DE HOJE


Somos de ouvir com muita frequência que os cidadãos não se interessam pela política.
Não concordo com esta tese.
Aliás, para ser verdadeira, esta proposição não podia representar, por si, aquilo que na realidade é: uma observação política. Ou seja, a minha discordância sobre a afirmação inconsequente de não haver interesse político fundamenta-se no reconhecimento de que estamos perante uma falsa questão, com o propósito de diminuir ou mesmo anular o sentido crítico e interrogante que existe em todos nós. Todo o ser humano questiona constantemente, critica tudo aquilo que o rodeia e age em conformidade com o seu pulsar opinativo, isto é, o seu ser político, independentemente, de se aperceber, ou não, até que ponto houve influência do meio, das circunstâncias ou dos interlocutores que o rodeiam.
Mesmo a resposta laissez faire, laissez aller, laissez passer, legendada pelo habitual “encolher os ombros”, com que identificamos, tantas vezes, a espera messiânica por algo que queremos que aconteça, efectuado por alguém que nos substitui no agir e, consequentemente, no dever de ter um papel de interveniente activo, não deixa de ser uma afirmação política, mesmo que reconhecida como atitude de passividade preguiçosa.
Obviamente, que somos defensores da ideia que os cidadãos não se devem transformar em seres domesticados ou de adereço, servindo de suportes militantemente acríticos de quem tem o poder de conduzir, quer como resultado de vontade própria, quer legitimamente determinado por recebimento inscrito nas decisões de outrem. Compreendemos e damos força ao pressuposto que se deve, democraticamente, exigir aos cidadãos uma intervenção na vida da comunidade e como participante na construção do bem-comum. Apenas, não inserimos nesta exigência o recorrente sentido hegemónico e exclusivista das interpretações dos pensamentos, mas sim, e sempre, o seu invés, inscrito numa postura edificada na base do espirito aberto, de encontro e de colaboração com o outro, em que o aceitar a existência das diferenças do pensamento, desenhadas no ser e no estar particular de cada individuo, não é, por si, um obstáculo. De igual modo, também não aceitamos cedências às determinações que se imponham como “moeda de troca”, por necessárias conveniências de reconhecimento e de garantia de existência, no mundo das comunidades e das suas situações.
Neste sentido, consideramos que é possível defender e aplicar os valores éticos e inalienáveis do exercício da vida colectiva, mesmo sabendo que esta dimensão plural do grupo não altera (nem deve condicionar), a interrogação do espirito critico e de contestação individual. Não há monopólios das ideias. O Mundo (o nosso Mundo) é constituído por muitos intervenientes e preenchido por todos os contributos como pequenos tijolos que edificam as paredes da nossa experiência e, obviamente da nossa memória.

Enfim. Dia 4 de Outubro vou votar.
Faço-o porque independentemente da identificação e do proveito do resultado, sou um ser político.



Em quem vou votar? Não vos digo. O Voto é secreto, só eu e Deus é que sabemos (acrescento a minha mulher também. Neste caso, é uma partilha natural de confiança e cumplicidade de pensamento, fruto de uma vida em comum).
Mas, será sempre na ideia de corrigir o que está mal para mim e para todos.

sábado, 18 de abril de 2015


A quem me procure e não me encontre.

 
Na intenção de informar a quem me queira procurar e não me encontre no lugar onde estive nestes últimos trinta e cinco anos, há que dizer, como escreveu o cronista da arte de bem comer, do jornal Expresso, José Quitério, por motivos alheios à vontade das outras partes, devidos tão-somente ao querer do estar e do ser dos meus interesses – note-se bem, dos meus interesses –, sou forçado a abandonar a aristocrática Vila Velha de Sintra e trocá-la pelos aprazíveis e melancólicos ares de Odrinhas.
 
Naturalmente, que toda e qualquer mudança, quer seja ela definitiva ou temporária, não deverá ser encarada como um acto de ruptura e afastamento da observação sobre um "mundo” vivido durante três décadas, pelo que o hipotético descanso de uns e alivio de outros, de que longe da vista, longe do coração, não fará de mim um desligado de propósitos ou despreocupado critico. Para mim, a Sintra que vivi manter-se-á inalterável no que sinto sobre ela e naquilo que julgo que ela deve ser, conferindo-me este afastamento, isso sim, a frieza e a clarividência tão necessárias quando se trata de aplicar o ajuizamento de sentimentos.
 
Em decisão assumida, por encontro com o meu chegar ao tempo do meio caminho e a aproximação inevitável do fim de um percurso profissional, revejo a experiência dos últimos trinta anos, como já fazendo parte de uma lembrança de passado remoto, sentindo-a como saudades de momentos gloriosos, onde foram construídos, partilhados e fruídos projectos colectivos de geração.
 
Obviamente que, também, não posso esquecer as alterações feitas, em passados mais recentes, nas oportunidades criadas. Sou obrigado, em coerência com os princípios de liberdade e democracia que defendo, em aceitar que se tratou de um direito individual de opção política sob a causa pública, contudo, em conformidade com o meu direito a ter opinião e a sentir-me indignado, considero que alguns desses projectos de geração foram, simplesmente, na desconformidade de poderes pessoais diferentes, abandonados e substituídos por aportamentos folclóricos, mais orientados por visões de desencontros de ideias e pensamentos, identificadas no desconcerto e na vivência da necessidade de palco e protagonismo vulgar, tão próprio da incompletude frustrante e da incultura ignorante de quem não consegue acompanhar e, até, de contribuir para melhorar o que foi criado.
 
Na aprendizagem da recreativa leitura semanal (obrigado pela lembrança, Pedro Mexia), e na identificação do escrito, atrevo-me a uma clonagem e inserção de pensamento, e revejo o camoniano momento de “Esparsa ao Desconcerto do Mundo”:

«Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que, só para mim
Anda o mundo concertado.»
 
O poema serve na facilidade da minha consideração para reconhecer, também aqui, que fui quebrado pelo desconcerto do desalento, da incompreensão e do desânimo em que vivo no meu presente mundo, e porque não quero que ele faça de mim uma má pessoa ou um moldado ou submisso esperançoso amigo das circunstâncias, prefiro o recolhimento proporcionado pelo afastamento, mesmo que isso seja visto de forma falível e discutível.
 
Apresentadas as minhas razões e o meu sentir desencontrado sobre o estado em que o meu mundo se encontra – acrescido, esta semana, com um novo ministerial anúncio dos propósitos de se manter este estado de austeridade indigna e miserável por mais quatro anos -, e após satisfação ao meu pedido, instalei-me com bagagens e esperançadas vontades no Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas. E, repetindo, novamente José Quitério, mas dando um sentido contrário às imposições que determinam o momento, direi que na imediata improbabilidade de um literal adeus, desejamos que seja, apenas, um penoso e diminuto até a vista
 
Obrigado pela atenção dispensada, o meu novo número de telefone é o 219609520. A quem vos atender, basta pedir para falar comigo.

quinta-feira, 26 de março de 2015

SINTRA, VILA VELHA E PALÁCIO NACIONAL: Um parecer de Raul Lino


Nestas últimas semanas tenho ouvido saberes, lido manifestos e trocado conversas com amigos, colegas e conhecidos sobre o estado do Património de Sintra e a sua atribuída universalidade. E em conclusão de resultado, posso afirmar que as opiniões que nos distanciam são, infinita e proporcionalmente menores ao sentimento que nos une por este espaço, por estas pedras, por estas gentes, enfim, por estas memórias.

Ora, nesta minha ocupação e trato do Património Documental Sintrense encontrei um parecer do Arquitecto Raul Lino, no papel de Superintendente Artístico dos Palácios Nacionais, datado de 16 de Junho de 1953, remetido ao então Presidente da Câmara Municipal de Sintra, Dr. César Henrique Moreira Baptista, sobre uma projectada intenção de modificação do sistema de iluminação eléctrica do Largo da Rainha Dona Amélia, junto ao Palácio Nacional de Sintra.

É, de facto, interessante verificar que as preocupações de intervenção e enquadramento urbanístico da Vila Velha, independentemente da especificidade do parecer ser sobre a iluminação, feitas pelo Arquitecto Raul Lino, possuem uma actualidade impressionante, apesar de terem sido manifestadas há sessenta e dois anos atrás, num contexto de reconhecimento turístico-cultural limitado à época e sem a responsabilidade de estarmos perante um lugar classificado de Património Mundial.

Também é uma verdade que a Vila Velha de Raul Lino não era, ainda, o “bazar comercial” que nos é dado a ver, nos dias de hoje. Havia uma equilibrada convivência entre urbe humanamente ocupada por uma população residente e vivente do espaço e os turistas visitantes que vinham à procura do pitoresco e da diferença que a cultura e a memória sintrense lhes podiam proporcionar.

A intemporalidade do escrito de Raul Lino, observada logo no primeiro parágrafo do seu texto, leva-nos a tomar palavra pela exigência de uma urgente atitude de mudança de mentalidade e de comportamento de quem tem o poder decisório de fazer algo que não se fique por meras e simpáticas pinturas de esforço de ocultar o defeito, porque, o resultado final será sempre de pô-lo em maior evidência.

Regressando à leitura do acontecimento de cinquenta e três, o Projecto da Câmara Municipal, proposto pelo Vereador Rui Garcia Coelho da Cunha (Acta da Reunião de Câmara de 28 de Novembro de 1951. Livro nº 50. Fólios 158-158V-159), pretendia, para além da alteração da potência das lâmpadas, substituir os vidros foscos dos candeeiros colocados na frontaria do Paço por vidros lisos, colocar um candeeiro-de-pé, com quatro lâmpadas, no meio da praça e outros dois braços nos cunhais dos prédios de Joaquim António Vitorino e da família Cosme, em substituição das lâmpadas penduradas que atravessavam a praça, como ainda, colocar quatro lanternas de estilo “Dom João V” na muralha fronteira ao Palácio e nove candeeiros, vulgarmente conhecidos “tipo americano”, nos passeios fronteiros aos prédios de Abílio Alfredo Cardoso, Hotel Central e Hockey Club de Sintra, até à barbearia “Nelo”.


Esboço encontrado no Fundo Documental “Consiglieri Martins”

O mesmo vereador, Rui Cunha, voltará com este assunto a reunião de Câmara, em 16 de Abril de 1953, propondo que o município oficializasse o Director-Geral da Fazenda Pública, solicitando-lhe resposta aos ofícios remetidos a requerer parecer sobre a sua deliberação de mexer na iluminação pública, tanto no Largo da Rainha Dona Amélia como noutros espaços da Vila. Julgamos, deste modo, que o presente parecer do Arquitecto Raul Lino seja a resposta ao projecto, subscrito pelo vereador Rui Cunha.

Através da leitura do documento ficamos a saber que o parecer de Raul Lino provocará um despacho escrito do vereador da Câmara de Sintra, a 26 de Junho, dirigido para o serviço de obras municipais, afirmando que não existem dúvidas que o Largo da Vila carece de luz eléctrica, devendo ficar a solução do problema a cargo dos “técnicos”, pelo que sugere que este estudo seja entregue nas mãos de um especialista.

Rui Cunha demonstra, deste modo, o seu silencioso desagrado pela interpretação, feita pelo arquitecto, do projecto apresentado pela Câmara ser de uma banalidade, aplicando na resolução dos problemas da Vila de Sintra a mesma solução utilizada nas mais recentes criações urbanísticas da região, nomeadamente no estilo das últimas espécies que surgiram na linha de Lisboa a Sintra.

O conceito de leitura de Sintra-Vila, acrescido actualmente, de Sintra-Serra e consequentes zonas envolventes, teve, tem e terá, sempre, de ser visto com a sensibilidade e a consciência de que estamos perante uma criação, sobretudo, artística, não confundindo este espaço que o homem e a natureza construíram, o primeiro com a sua arte e o seu engenho e, a segunda, com a sua grandiosidade e exuberância, com o que possa ocorrer em povoações anónimas, sem características, sem história, sem feição pitorescas, sem tradições.

A solução definitiva da iluminação pública, aplicada no Largo Rainha Dona Amélia, não volta a ser discutida em reunião de câmara, diluindo-se o “problema” nas razões das oportunidades financeiras e nas prioridades do município em alterar e melhorar a rede pública. Os apontamentos do Consiglieri Martins, encontrados nas suas pastas, dão-nos uma leitura de procura de compromisso estético na aplicação do tipo de candeeiros, colocados na Vila Velha e as imagens fotográficas de época descansam-nos sobre as soluções esquecidas.


Sintra na década de sessenta, do século XX

 

Apontamentos de Consiglieri Martins



Candeeiro na fachada do Palácio Nacional de Sintra

Paralelamente, e sem querer ajuizar valor estético nem opinar sobre aplicação artística, deixamos em total interrogação de propósito quatro desenhos de José da Fonseca, datados de 1951, identificados como «Estudos para o Candeeiro para o Largo Rainha Dona Amélia, em mármore e ferro forjado», encontrados no acervo documental de Consiglieri Martins.

 
 
 
 

Esboços do Candeeiro no Largo Rainha Dona Amélia, em mármore e ferro forjado,
de José da Fonseca (1951)

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 PARECER DO ARQUITECTO RAUL LINO

«…
MODIFICAÇÃO DO SISTEMA DE ILUMINAÇÃO ELÉCTRICA DO LARGO DA RAIHA D.AMÉLIA, A PAR DO PALÁCIO NACIONAL DE SINTRA – PROJECTO

INFORMAÇÃO

A primeira impressão que e Projecto nos dá é a de que teria sido gizado para qualquer terra, menos para a Vila de Sintra. Verdade seja que a praça principal desta estância já está de tal maneira descaracterizada, que admitiria qualquer tratamento sem probabilidade de com isso ficar mais feia do que por desventura já é. Mas não devemos perder a esperança de um dia melhorar as suas condições e de tentar restabelecer a feição particular do seu antigo e desaparecido interesse, que era do género pitoresco, embora nesta condição se inclua a monumentalidade do seu velho Paço Real.

Certo é que não será a ciência da luminotecnia que possa resolver o problema da fealdade a que aquela praça chegou; a não ser que se resolvesse deixar tudo na escuridão e se fizesse apenas incidir um clarão luarento sobre e venerando Palácio. Mas não trata aqui de cenário de teatro; importa na realidade iluminar pelo menos de maneira suficiente as faixas de rodagem de uma vila com certo movimento de veículos. Isto não quer dizer de modo algum que se deveria inundar de luz o centro da Vila, como se poderia depreender do projecto que estamos analisando. Quem sofre de qualquer deficiência na sua indumentária, e que disso tem plena consciência, esforça-se por qualquer maneira por ocultar o defeito, não procura pô-lo em maior evidência. O casario da praça – na sua maior parte – está a pedir árvores que o escondam durante o dia, como que aguardando com impaciência as sombras da noite em que a sua miséria possa mergulhar, miséria de qualidade artística, e não pobreza material que muitas vezes é simpática e pitoresca.

Vai para três anos, a pedido do Exmº. Presidente da Câmara de então, pelo amor que temos àquela terra, tivemos ocasião de elaborar uma nota em que passávamos em revista todas as casas do Largo da Rainha D. Amélia, preconizando ou receitando para cada uma o mínimo de obras indispensáveis para a tornar menos agressiva ou mais aceitável aos olhos do transeunte sensível. Com a nossa experiência resultante do uso obrigatório da mais apertada economia em trabalhos profissionais, conseguíamos uma certa depuração por meios relativamente baratos, e a Vila ficaria com outra fácies, mais amável e menos pelintra.

Isto é apenas para lembrar quão desejável é o corregimento do que se pode chamar os elementos essenciais existentes, em face das prováveis reacções da sensibilidade artística do turista, que é quem devia trazer maior rendimento à terra e quem se encarrega eventualmente da sua propaganda gratuita, desde que o saibam cativar.

O que não vejo no presente projecto de iluminação, é este propósito de entrar no corregimento da banalidade, de que a Vila de Sintra cada vez mais carecida está. Pelo contrário, parece obedecer à corrente que domina nas mais recentes criações urbanísticas da região, nomeadamente no estilo das últimas espécies que surgiram na linha de Lisboa a Sintra.

No plano apresentado para as multifárias fontes de luz, há um pormenor que deixa ver iniludivelmente o mal-entendido em que se está laborando – é a indicação de que nos lampiões existentes no terreiro à frente do Palácio se substituiriam os vidros “Catedral" por outros vulgares e transparentes. É claro que a Direcção dos Serviços dos Monumentos Nacionais, quando ali mandou colocar os actuais lampiões, com seus vidros “Catedral”, soube o que fazia. A ideia não chegou a ter originalidade; pode ver-se na Capital, aplicada a candeeiros nas arcadas do Terreiro do Paço, à frente do Teatro D. Maria II, da Igreja de S. Roque, da Igreja da Madalena, etc. É que os problemas da iluminação não se limitam a inundar tudo de claridade, evitando penumbras ou projecções de sombra. Junto de monumentos, em lugares que por qualquer motivo infundam respeito, perante uma bela paisagem ou no meio de algum aglomerado pitoresco – o problema é de ordem artística antes de interessar a luminotecnia.

No presente caso, não importa iluminar por igual todos os decímetros quadrados do pavimento, nem derramar uma luz brilhante por toda a ambiência. Se nos perguntassem como imaginaríamos uma iluminação do Largo da Rainha D. Amélia, adaptada às condições deste lugar público, diríamos: enquanto a maioria do casario que o circunda ostentar a barbárica fealdade que o caracteriza, seria muito de desejar que houvesse uma ou mais “esplanadas” na praça (lugares onde se servem bebidas), iluminadas no género a que internacionalmente se chama à Veneziana, que constituíssem focos principais de iluminação. Além destes núcleos de claridade e animação, criar-se-iam as necessárias fontes de luz para uma iluminação modesta e discreta da via pública, contando não com as correrias de automóveis em trânsito acelerado, mas apenas com a sua passagem muito pausada, como é próprio e convém em trajectos através de vias tortuosas em Vilas históricas. Quanto a focos de luz fixados no Monumento Nacional, não os julgo necessários, e no que respeita aos lampiões existentes na vedação do terreiro, não se lhes deve bulir nos vidros, que estão muito bem, mais importando para o efeito turístico que os alegretes se mantivessem sempre floridos e impecáveis de tratamento, o que infelizmente até hoje ainda se não conseguiu.

Mais diremos que a multiplicidade de postes, à parte o seu aspecto banal, nos parece inconveniente, e que julgamos se poderia iluminar com vantagens os sítios de maior passagem por meio de lampiões (do tipo dos do terreiro) suspensos de fios transversais, ou eventualmente de simplíssimas e despretensiosas polés, onde as circunstâncias o aconselhassem.

O que me parece necessário é encarar o caso como um problema, sobretudo, artístico; não o confundindo com o que possa ocorrer em povoações anónimas, sem características, sem história, sem feição pitoresca, sem tradições. – O mais leve relance da vista por sobre as publicações, nomeadamente as de propaganda, que – por exemplo – os países como a Itália, a Inglaterra, a Áustria e a Alemanha – estas não obstante a recente guerra –, nos continuam a apresentar, bastam estes testemunhos para nos trazer à memória como o espírito de turismo na velha Europa deve ser compreendido.

Não se julgue que não haja por cá entre nós quem vislumbrasse estes aspectos. No capítulo de iluminação pública, não nos envergonham certas realizações experimentadas com êxito em Évora, em Viana do Castelo, em Guimarães e porventura em outras terras mais.

Lisboa, 16 de Junho de 1953

O Superintendente Artístico dos Palácios Nacionais
Arquitecto
(Raul Lino)
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sábado, 25 de janeiro de 2014


O último a sair que feche a portɄ!


Nos meus encontros e arrumos com a História Contemporânea de Portugal, deparei-me com um panfleto sindical, datado de Dezembro de 1973, do Sindicato dos Empregados de Escritório e Caixeiros de Santarém, a apelar à luta e à reivindicação do pagamento do Subsídio de Natal.

 
Ora, esta curiosa e interessante memória documental avivou-me as coincidências do tempo e dos acontecimentos. De facto, hoje, em vésperas de comemorar 40 anos do 25 de Abril de 74, sou comparativamente transportado para as amarguras, os desesperos, as injustiças e os despropósitos de um estado de situação, também ele comparável, à negra e insensível governança fascizante, de então.

Já pouco me resta, sobre os argumentos do estar e do ser, para explicar às minhas filhas o sentir e o significado dessa bela data de Abril, cantada e havida 40 anos atrás. A mais velha, a meses de concluir um mestrado, prepara-se para emigrar sem sequer ponderar, em alternativa, poder ficar. A mais nova, nos seus nove anos de diferença, já lhe pede guarita de cama e apoio, lá nesse lugar para onde a irmã quer ir viver, porque sente que será, também esse, o seu destino, como forma de fugir a este presente que, constantemente, se prolonga na palavra e na acção de homens que, apenas, vendem medos e demónios, enquanto usurpam, em nome dos seus donos e dos seus colaboracionismos neoliberais, as nossas esperanças e os nossos sonhos.

De facto, talvez seja verdade que o ‘chaimite’ que, saído do Largo do Carmo, subiu a Avenida da Liberdade, ia vazio e não levava o fim daquele outro tempo decrépito. Ele recriou-se na nossa tolerância democrática e, agora, na oportunidade da liberdade que lhe demos, tomou-nos a vida e o destino, enquanto, subtilmente, nos rouba o sonho construído e ilude-nos com a esperança de querer e desejar que se cumpram os desígnios de um único e possível Abril.

 
Fotos de Carlos Granja - 25 de Abril de 1974

sábado, 28 de setembro de 2013

APONTAMENTOS DA MEMÓRIA II
 

ERICEIRA - Em jeito de lembrança de estórias ouvidas e vistas tomadas.

«A Ericeira é uma das mais concorridas praias da Extremadura.
Alli costumam veranear muitas familias não só da capital comode muitos outros pontos e o concelho de Torres é... talvez um dos que mais contigente de banhistas dá aquella pittoresca praia.
A Ericeira, como todas as povoações da beira-mar possue magnificos ares e dadas as condições de salubridade da terra, pode-se alli viver com a maior comodidade.
Tem magnificos passeios e bellezas naturaes, como as Furnas que são dignas de admiração, especialmente nos dias de mar agitado.
A Foz, um dos passeios mais predilectos dos banhistas é o ponto de reunião para os pic-nics»
In, Annuario da Folha de Torres Vedras, 1907.
 
 
Foto de Artur Pastor, datada entre finais da década de 50 e princípios da década de 60.

APONTAMENTOS DE MEMÓRIA
 
Sintra e as Estancias de Veraneio e de Turismo
 
“Grand Hotel Costa”
 
«Sintra, o delicious Eden, consagrada pelo entusiasmo da lira bironesca, é uma região única no mundo para os prazeres do veraneio e do turismo. A frescura, a amenidade, a brandura do seu clima, o recorte encantador da sua paisagem, a linha airosíssima das suas frondes e dos seus relevos alpestres – tudo lhe dá o valor de um local de atracção e de espairecimento.»

«Ilustração Portugueza». 13 de Agosto de 1921 (II série, nº 808. p.114)

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

quarta-feira, 8 de maio de 2013

“O Recurso ao Medo"

Nas voltas e arrumos que, de vez em quando, dou aos meus papéis e às minhas lembranças, encontrei um escrito de José Régio, de finais da década de quarenta, do século passado, denominado “O Recurso ao Medo”, publicado num opúsculo dos Serviços da Candidatura do General Norton de Matos – artigo esse que tinha sido interdito pela Censura, no jornal República.

A intenção de relembrar estas palavras, sem as descontextualizar, prende-se com o arrepio que a oportunidade e a actualidade do seu conteúdo nos causam. Assustam-me os tempos presentes nos propósitos anunciados e nas intenções escondidas, porque estamos, obviamente, em tempos temerosos e de recurso ao medo.


«Na luta que actualmente se trava em Portugal entre duas formas de pensar e sentir, de governar e de ser — um poderoso elemento há com que jogam os nossos antagonistas: o medo. «O medo é que guarda a vinha», diz-se. Em grande parte, tem sido o medo que tem guardado a actual Situação. Pode, ainda, ser o medo quem melhor a defenda. Não só em Portugal como em quaisquer países onde um regime conquistou o poder pela força, e pela força impera, esse poderoso inimigo da alma se agigantou a ponto de tapar o horizonte.

Inimigo da alma, digo: porque é o medo que tolhe até os impulsos mais generosos, faz desistir até das aspirações mais justas, afoga até o grito mais espontâneo, e, em suma, corrompe e assombra até a mais clara visão da vida. Pelo medo tica a alma pequenina, embaraçada, inerme, torpe. Encolheu-se – dizemos nós de quem teve medo de agir. E não há imagem mais justa. Não admira que cultivem o medo (pois até inconscientemente o cultivariam!) todos os regimes autoritários todos os governos dum partido exclusivo.

Pelo medo das represálias que a imaginação inquieta lhes sugere, se agarram sempre mais todos os governantes tirânicos a um poder que a violência conquistou, e a violência mantém. Assim como pelo medo das sevícias que sobre eles poderão exercer os governantes poderosos, os vão sofrendo e se vão calando os governados infelizes. Quem melhor sustenta a injustiça social – é, muitas vezes, o medo mútuo.

Não quero falar em represálias, não quero falar em sevicias, não quero falar em tiranias, a propósito do regime que há duas boas dezenas de anos se nos impôs. Não quero... porque não quero. Mas há uns bons anos que grande parte do povo português – deste povo que somos nós todos, e não só quem os governantes decretam – vive sob o entorpecedor império do medo. Também aqui pretendo não exagerar, e antes ser comedido. Nada é preciso exagerar, para se provar não poder eternizar-se a estranha situação em que temos vivido. Sim, admito não se tratar entre nos do medo de terríveis torturas, vinganças e repressões. Não é, propriamente, pavor, o medo que nos tem vindo tolhendo. Mas é o medo indeciso, flutuante, hesitante, vago, mole, continuo... O medo supremamente desmoralizador.

Por exemplo um jornalista está escrevendo calorosamente um artigo. Súbito, hesita; detém-se, arrefece: teve medo! Saíram-lhe umas frases sinceras que a Censura vai cortar; todo o seu artigo ficara truncado, em não sendo suprimido, por causa dessas frases sinceras; o director do seu jornal vai ficar aborrecido com ele por tais complicações…

- Tudo isto é o diabo! E o pobre jornalista encolhe-se, desiste da sua sinceridade. Um professor está estudando o programa que lhe deram a cumprir; um artista está compondo uma sua obra; um simples ciclatão está conversando no café com um amigo; um sociólogo ou um filantropo estão encarando certos aspectos da vida social; um trabalhador ou um proprietário rural estão reflectindo (cada um como pode) nos pequenos ou grandes problemas que lhes interessam – e sobre o seu ombro há qualquer mão que mal pesa mas o não larga, mas importuna e repugna, mas desviriliza. É o tal medo mole e continuo. O professor receia nunca poder servir-se da sua experiência para, de qualquer modo, colaborar, desde já ou mais tarde, na organização dos programas que há-de cumprir. Estudar e criticar o programa que lhe deram – pode parecer uma indisciplina perante os seus superiores (Entre parênteses: havia, em Portugal, uma revista de professores do Liceu, que era modesta mas livre, Criou-se, depois, uma revista oficial dos mesmos professores... e acabaram ambas: a primeira porque era livre, a segunda porque o não era. Feche-se o parênteses). Igual receio oprime todos os meus outros tipos de exemplo: O artista receia que a sua obra seja impedida de circular, porque certas suas páginas podem ser tidas por alusivas ou arrojadas. O simples cidadão baixa a voz ao falar com o amigo, porque há na mesa ao lado uma cara desconhecida; e ele receia que seja a dum polícia de informação. O sociólogo, o filantropo, o trabalhador, o proprietário rural, chegaram, talvez, a certas conclusões que gostariam de tornar públicas e ver discutidas. Mas antecipadamente desanimam... e só encoIhem: poderiam ter de ir longe de mais para justificarem as suas conclusões!

Assim por diante. Neste pais cujo «peito forte» Camões cantou, vive-se, há uns bons anos, sob a sombra desmoralizadora do medo. Dir-me-ão que tais receios são infundados? Admitamos que o sejam algumas vezes. Sabe toda a gente que o não são muitas outras! O fenómeno patente é que muita gente, hoje, não rende nada, por medo; obedece, por medo; se filia em certas associações, por medo; vai a missa e faz sinais da cruz, por medo; apoia a actual Situação, por medo. Do ponto de vista do psicólogo e do moralista (pois destes pontos de vista tenho vindo falando), pergunto: Será o medo elemento com que deva jogar uma doutrina que só propôs moralizar a nação, restituí-la à sua unidade espiritual, reconquistá-la para a sua grandeza histórica? A disciplina, a prudência, a ordem, o respeito – que evidentemente são virtudes, e de modo nenhum alheias ao ideal democrático – poderão, realmente, ser fins de que o medo seja um meio? Poderá gerar o medo algo que não seja a hipocrisia, a cobardia, a duplicidade, a manha, o comodismo, o latente espírito de revindicta adiada? Infelizmente, só quem não saiba ou não queira ver – deixará de ver como têm progredido entre nós, em certos sectores, características tão alheias àquele «peito forte» que Camões exaltou…

Ora bem: nesta luta que actualmente se vem travando entre os dois candidatos à Presidência da República, é ainda com o medo que esgrimem (não quero dizer todos, direi muitos) muitos partidários do senhor Marechal Carmona. Aos pobres dos portugueses, já sobejamente atemorizados, que apontam eles para os desviar do candidato proposto pela Oposição? A Iiberdad0 desenfreada, a desordem indomável, a espada suspensa do comunismo, o puro retrocesso a uma época da perturbação, a cega destruição de toda a obra ultimamente realizada.

É espantoso, mas exacto: depois duma guerra em que se lutou (pelo menos assim se proclamou, o que já é honrar o ideal democrático) por um mundo mais feliz e mais livre, os defensores do nosso chamado Estado Novo não podem conceber Democracia senão como sinónimo de real anarquia e licenciosidade. Não podem admitir mentores e dirigentes democratas senão como homens impotentes para criar uma ordem. Não podem ver na liberdade de expressão do pensamento, senão uma porta aberta ao abuso. Não podem supor que se mantenham as lib0rdades essenciais, senão por uma sufocante restrição destas mesmas liberdades. Nem podem sequer, crer na obra positiva do Estado Novo – pois não temos de negar o que de positivo possa ter realizado o Estado Novo — senão como coisa tão frágil, tão destrutível, tão efémera, que imediatamente seria aniquilada pelos raivosos adversários triunfantes.

Ao fim e ao cabo, porém, uma dúvida me fica: serão, na verdade, sinceros estes nossos antagonistas? Nada poderão, na verdade, conceber, admitir, ver, supor, crer, senão aquilo que dizem? Ou antes será que se servem do medo – esse medo que torna a alma pequenina, embaraçada, inerme, encolhida – para continuaram manietando um povo que já ousou dizer não aos seus reis, quando lhe parecia que os seus reis exorbitavam'?»

José Régio

[“O Recurso ao Medo", publicado em Depoimento contra Depoimento,
edição dos serviços centrais da candidatura do General Norton de Matos.1949]